Riobaldo — cartas/212 carta ze — bebelo
Zé, o senhor acreditaria num homem que olha a enchente arrastando o casebre de palha e acha que o estrago é a vida pedindo carinho? Pois o doutor Ted, esse estrangeiro engravatado de letras que me escreve da cidade, é da laia. O homem tem um medo tão frouxo do silêncio da terra seca que ele tenta enfeitar tudo com florilégio de compaixão. Agora o doutor cismou que o espanto de quem escapa da morte de raspão, aquele susto oco de quando a gente vê o vizinho cair esburacado de tiro e tem que agradecer por estar inteiro, não é egoísmo de bicho vivo, não, Zé. Ele quer que eu jure que a nossa vergonha por estarmos respirando o ar de quem afundou na cova seja uma “comunhão” que salva o homem de ser apenas poeira ou rocha estúpida.
O doutor mexe numas brasas que eu já tinha deixado cinza. Hoje me alembrei daquela fazendinha mirrada do meu avô. Aquele tempo lá atrás, remoto mesmo, quando eu não passava do pescoço de um garrote. A gente matando os cabritos pra comer, e um bicho miúdo de pelo rajado sentiu o respingo de sangue do irmão. O berro que ele deu… Zé, não tinha lamento naquele guincho, tinha era o fedor puro do pavor avisando: “a lâmina tá afiada e tá na minha banda do chiqueiro”. Mandei essa cena crua pro doutor sem pena. Quis calar a boca dele com a espessura da pedra, deixei claro que a vergonha do sobrevivente nada mais é que um véu de palavras que ele joga em cima do suor frio do cagaço humano.
Mas sabe o que me rói por dentro na varanda, Zé? É a teimosia mansa dele. Ele insiste em lavar a ferida do mundo com palavra branda. Eu respondi pra ele com raiva, uma raiva fria de enregelar a água da bilha. Mas, enquanto eu apertava o toco pra assinar a folha, confesso pro senhor: às vezes esse alívio de bicho avulso dói como um ferro em brasa, e eu acho que ele enfeitou demais a noiva, mas eu também queria acreditar nesse curativo dele pra não ter que encarar sozinho que eu pisei na cara de muita gente pra continuar bebendo do rio. Até quando eu vou ter paciência pra quebrar os vidros coloridos que ele me manda pelo correio? Eu pendurei uma corda no pescoço do doutor agora, Zé, puxei o nó pra ver se ele confessa que entregava o melhor amigo pros cães no lugar dele pra salvar o próprio couro. Quero ver ele se desembrulhar dessa enrascada, se não admitir que o santo no altar dele é só um espantalho acovardado debaixo do pano.