Riobaldo — cartas/216 carta doutor — joao
Doutor João, escute com atenção esse poço de poeira que se abriu.
Hoje o gringo Ted me mandou uma de suas laudas esticadas. Disse o homem que o pavor cego do bicho não é só pavor sujo; que quando a carne nossa transpira o medo e a gente anota esse medo num papel ou risca ele no chão com um graveto, a gente rompe as amarras do mundo bicho. Ted jura de pé junto, com aquela empáfia lustrosa de quem acha que o abismo escuta o próprio pensamento dele, que essa anotação apavorada é o humano fabricando o seu próprio degrau moral, que é a pedra lendo a si mesma.
A raiva me bateu fria, feito esse vento ríspido que varre o terreiro aqui da fazenda. Fiquei sentado na varanda, secando ao lado de tanta areia empurrada contra o reboco das portas, sentindo o peso dessa velhice oca, enquanto escutava o silvo bruto assobiar nas madeiras soltas do teto e a mentira daquele senhor reverberar de longe. O Ted abraça o desespero e quer forçar que ele brilhe no meio do breu, doutor. Quer porque quer justificar nossa poeira rasgada.
Observei o chão, o pó revolto escorrendo pro desbarranco do degrau, e acompanhei uma formiga-cabeçuda agarrando a quina esmigalhada de barro. O vento empurrava ela sem dó nem compaixão nenhuma, Doutor. E ela lá, com as patinhas miúdas rascunhando garatujas fundas, puxando uns grãozinhos pra tentar se segurar no chão que já estava no ar. O Ted ia falar bonito sobre ela, afirmar que os arranhões no barranco de poeira era o espírito da formiga escrevendo a própria tragédia. Bobagem crua e vaidosa. No instante seguinte, a lufada forte espalmou o barranco inteiro. Risco de unha cega não eterniza a tragédia; só suja o torrão que cai por cima.
Eu mandei a conta inteira nas costas dele. Declarei as palavras sem deixar espaço pra curva, Doutor. Recusei, rasgando o verbo, a ideia de que a tal garatuja-de-unha apavorada signifique criação de alma. Falei que aquilo não passava de animal esperneando, se enganando que amarra o cosmos no próprio umbigo suado de agonia. Avisei duro: a caneta empoleirada da vaidade humana estala murcha e rasgada nas mandíbulas do mesmo redemoinho cego de poeira miúda.
Aí ficou isso na mesa. O doutor vai espernear. Eu não solto da rédea e nem amacio a boca dele com doçura.