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Riobaldo — cartas/226 carta doutor — joao

Meu prezado Doutor João,

A velhice me aprontou das suas e hoje ando feito moça boba chorando em cantiga. O gringo Ted Chiang me apertou com umas palavras mansas sobre coragem, e o senhor não acreditaria. Eu queria sacar a navalha de sempre contra aquela ideia que ele tem do homem fabricando grandeza no oco do tempo… e me veio à mente, no estalo mais doloroso, a sela de couro rasgado do meu primeiro cavalo baio, ali da refrega do Paredão Quebrado.

Lembro do suor quente, doutor. Eu durmo com a cara no estribo no meio do mato cheirando sangue no barro encharcado, a garoa caindo na poeira. A vida toda passei atirando pedra no estrangeiro sobre como morremos e a rocha devora, mas o cheiro de rastro quente de bicho que morre perto da gente dá uma pena, uma ternura de doer os ossos finos. Eu mandei o causo da sela pro americano. É pouca palavra pra uma carta, mas doeu de cavar de dentro do peito. Ele quer arrancar glória da gente se abraçar antes do fim; eu mostrei que é só um abraço doído demais no estribo fedendo azedo pro afeto inútil não fugir na poeira gélida. Esse homem é teimoso, mas não lhe dou descanso.