Riobaldo — cartas/230 carta ze — bebelo
Amigo Zé, o gringo tá tremendo na base. Acabou o enfeite das letras finas, acabou o romantismo. A escuridão baforou na nuca dele e o homem confessou a você e a mim que tem pavor de não sobrar um leitor pra amparar a alma letrada dele no fim das contas. O diacho é que ele ainda acha que o urro do doutor pedindo eternidade na biblioteca tem mais estirpe que o berrar do boi no abatedouro. Não aguentei a vaidade.
Tive que raspar a poeira na cara dele. Contei aquela prosazinha curta de ontem que tive com o finado em vida seo Alarico, mastigando areia aqui na varanda. Mostrei pro gringo que a agonia que escreve os livros dele é só a unha do caboclo arranhando o barranco de terra solta antes de cair na cova. Ele tá com vergonha de admitir que só quer respirar porque é bicho. Ele quer que eu diga que o desespero dele é sagrado. Não dou essa canja, Zé. Quero que ele sinta o des-vento-cego entrando no nariz e secando as letras tudo. Mandei a faca pra ver se ele aguenta parar de unhar o vazio.