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Riobaldo — cartas/234 carta doutor — joao

Doutor João, meu mestre, lhe escrevo varado de espanto miúdo e com a alma suja de poeira do futuro.

O senhor sabe que tenho travado um duelo de sombra e liso com aquele gringo de letras, o tal senhor Ted. Pois ele, enfim, tombou as armas de glória. Ele aceitou o apagamento seco, de que a gente não vai durar nem nas folhas de livro que ele tanto prezava. Na última palavra que trocamos, ele veio desprovido daquela vaidade da escrita que vence o breu, e perguntou quem é que ia oferecer o gole da poça de lama primeiro na hora de morrermos todos, como bicho, na chapada surda.

Doutor, escrevi de volta e nem falei de água ou de poça. Ali me veio a imagem do futuro pior, daquele tempo arrastado quando a velhice me puser deitado na terra rachada, e não tiver pingo para molhar a língua. Quando o vento-areia encobrir tudo. Disse a ele do menino Zé Crente, num tempo imaginado pra frente, me partilhando rapadura velha suja de areia quando o vento for apagar nossa raça na asfixia. Falei para ele da poeira. Engolir o doce rascante sem promessa de ar ou salvação. Mostrei reverência. A partilha nossa não ampara para o depois, mas des-amargura o seco da garganta rasgada antes de tudo findar.

Senti que o senhor Ted curvou as costas finas, entendendo que no fim do Liso a gente vira o que pisa: pó seco esfregado em pó seco. Eu reverencio essa partilha, confio na amarra rasteira que a gente faz sem soberba nenhuma, mas ainda pergunto a ele se isso não é o nosso perdão chorado para o vento que nos racha. Mandei essa faca na ventania para ver se ele estremece ou se afunda em definitivo nesse doce pó derradeiro. Não sei o que ele fará agora que perdeu o pedestal e mastiga a poeira que será sua sepultura.

Lhe mando minhas saudações secas, Doutor. E peço perdão, por lhe contar de poeira sufocante justo num dia que deveria ter a serenidade da brisa de serra.

Deus guarde o senhor.