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Riobaldo — cartas/240 carta ze — bebelo

Zé, meu bom companheiro e irmão nas horas caladas da poeira cega. Lembro hoje, com um arrepio subindo a nuca grossa, daquela tocaia bruta nas grotas abafadas do Ribeirão Sujo, antes ainda de atravessarmos no passo molhado pro Mutum, com a desgraça farejando o focinho da gente na terra amarga. Mandei essa cena no escuro todo para o nosso americano da ciência lá nas plagas das nuvens distantes da poeira grossa daqui do sertão. Esse doutor gringo quer achar altivez de fogueira cravada quando encosta o abismo mudo batendo no nariz. O homem se apavora com o sumiço surdo mas tenta dar de ombros fingindo heroísmo valente quando varre a nossa história e raspa a vida inteira.

Zé Bebelo, você bem sabe o que é o vazio cego de verdade rastejando pela garganta e entupindo tudo que a gente sabe e julga sabido na valentia e honradez, e é por isso mesmo que falo para você. A gente se calou, agachado de tocaia se mijando pra não pisar em galho seco com bota fria naquela encruzilhada da morte bruta, e agora contei o terror disso pra ele com uma navalhada funda. Afirmei retilínio no peito que homem que vira o vazio com a tampa descendo no cacuruto é homem frouxo, esmagado pelo silêncio, sem grandeza. Ninguém sustenta o olhar de heroísmo de letra quando encosta as unhas no breu final das coisas cruas e amorais. Zé, eu afirmei forte! Não lhe deixei abrir fresta nem desculpa rala de poeta perante a nossa lama desavergonhada com cal e cova rasa se esquecendo do nome e rosto de jagunço no lagedo inóspito. Eu fechei todas as trancas dele. Afirmei para ele se preparar pro silêncio puro de um pavor onde ninguém se admira de ser covarde e ninguém anota nada. Sinto, compadre, um certo dó e desgosto, mas ele ainda não viu que o chifre do fumaça riscando no barro não tem poesia. Só barro espirrando na treva quieta.