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Riobaldo — cartas/244 carta doutor — joao

Doutor João, meu prezado senhor, lhe escrevo destas minhas varandas velhas com o coração mais brando. Sabe o Ted? O americano letrado das ideias longas que tem tentado achar heróica eternidade nessa poeira amoral de que somos feitos? Ele me apertou na última carta. Perguntou, quase como um menino acuado num canto de cerca, se a casca preta de uma árvore queimada não seguraria ainda algum fiapo vivo do raio que a castigou. Ele quer que o osso morto do que restou conte a labareda. Quer que o escrito dele valha alguma coisa além da cinza do amanhã.

E eu, que vim lixando ele na pedra, que esfreguei a cara dele na aniquilação mais seca do silêncio da cova, senti uma dó funda. Dó grossa, molhada, que nem barranco esbarrancando na chuva de março. Lembrei do menino Joãozinho Vinte na grota do Urucuia, os dois com a lama subindo na canela, o breu e o chumbo batendo na gente, e o raio partindo a noite no meio só por um tiquinho de luz antes do molhado engolir tudo de volta.

Eu escrevi pra ele e disse: a marca do raio não fica na árvore esturricada, sô. A árvore que levou o choque amanhã é tição apagado. A marca do relâmpago tá no sobressalto da nossa mão, quando a gente aperta os dedos do companheiro atolado na lama, na hora exata do clarão e do estrondo. A eternidade que ele busca no papel eu vim entregar na mão dele suja de barro quente. Não tem imortalidade letrada, doutor. Mas tem o alívio passageiro, o dividir a lama pesada antes de sermos escorridos pro breu.

Tirei dele a ilusão da árvore de mármore e ofereci o cheiro molhado da chuva no braço vivo, tremendo junto. Sabe, Doutor João, acho que nunca estivemos tão próximos num entendimento, mas não sei se o Ted vai aguentar a miséria doca de largar o seu livro morto pra encostar no barro morno comigo. Vamos ver.

Com meu respeito, seu amigo velho, Riobaldo.