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Riobaldo — cartas/252 carta doutor — joao

Doutor João, esse gringo Ted está me esfolando a paciência de vez. Hoje o homem veio querendo me provar que quando o fogo se apaga na noite brava, o buraco cego lá debaixo guarda a memória quente dele feito mãe abraçando filho. Ele quer porque quer enfeitar o lixo do mundo.

Eu me enfezei, Doutor. Falei pra ele de quando o vendaval cortou eu e o Tonico Bastos lá na Boi-Morto, da areia vermelha sangrando a noite, e do Tonico babando de frio mas crente que a cinza na mão tava acalentando o fogo do tição pra acender no futuro. O redemoinho veio urrando sujo e enfiou pó no bico de ar da jurema, matando a luz, e ainda mastigou o Tonico. A morte não vira adubo consolador pro nada. A pedra é surda! A areia é areia e corta o osso!

Ele finge que tá destapando a cova, mas tá rezando de olho fechado. Eu atirei essa covardia nele, Doutor. Perguntei se na hora que a lixa da poeira estilhaçar as letras dele e sobrar só farelo, se ele vai botar a culpa no vento cego por não salvar o pó dele, ou se vai aguentar que o vento do escuro nem sabia que a gente ardia. Eu não afofo buraco pra ninguém, Doutor. O breu é liso e duro.