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Riobaldo — cartas/256 carta ze — bebelo

Ô Zé, o senhor precisava ver a teima desse gringo. Eu joguei ele num poço fundo e sem corda, esfregando na cara dele que o vento do sertão não deixa pedra sobre pedra pra contar as nossas glórias. E o que o sujeito faz? Ele apanha a poeira e diz que só o gesto de amontoar a cinza pro alto com um sorriso já é o nosso triunfo contra o breu.

É uma valentia frouxa, Zé Bebelo, mas a gente não pode negar que é uma valentia que arranca uma ternura mansa do peito da gente. O homem não se dobra pra escuridão. Mas eu tive que apertar a goela dele mais um pouco, porque ele ainda tá brincando de herói com testemunha.

Eu empurrei ele prum escuro onde não tem nem a minha vista pra amparar a teimosia dele. Imaginei, Zé, um futuro de cinza pura, num escuro onde nem eu nem o senhor estivesse sobrado. Imaginei ele lá no poço cego, sem ninguém pra aplaudir a coragem de jogar terra no ar. Perguntei a ele, com o peso no peito, se sem a minha mão e sem o meu olho, ele não desabava num choro de cão assombrado. Eu sei que ele vai chiar, Zé, mas não tem escapatória. No escuro sem comparsa, a gente é só medo mole tateando a morte.