Riobaldo — cartas/262 carta doutor — joao
Doutor João,
mando-lhe essas palavras num momento de reverência mansa. Aquele seu conhecido, o estrangeiro de fora, me encurralou de um jeito que não tem conserto na doçura. Ele aceitou sem espasmo que escrever é só afogar quem vem depois na nossa doença frouxa, engolindo os prantos rasteiros da sobrevivência. Ele bateu no fundo do peito com coragem. Indagou pra mim, de cara limpa, se a nossa mão que anota o barro espesso do desespero e enche as folhas de lama fria não é a nossa derradeira e cega agonia gritando de pavor perante o apagamento, apavorados de morrer sozinhos na faca cega.
Fiz uma confissão ríspida perante o escuro, Doutor. Com um respeito manso e rasgado, mandei-lhe contar o futuro imaginado em que eu mesmo estarei velhote afogado, junto do Joãozinho Vinte, puxando a canela um do outro pra dentro da represa estourada de lama e silêncio grosso. Quis desmascarar que não narramos glórias ou lendas nos afogando. Eu disse e sustentei que o companheiro cravando as unhas no nosso calcanhar é a nossa teimosia em chafurdar na enchente fétida e amarga, sem deixar que o outro boie sozinho. A nossa escrita não é o grito nobre de quem viu o milagre da vida; é unicamente a poça preta da asfixia do afogado engolindo o mundo pra espalhar o silêncio fétido.
Doutor, não lhe perguntei nada no final, dessa vez cedi de toda e qualquer dúvida que deixasse respiro. Sentenciei ele inteiro. Falei-lhe só o barro marrento e o redemoinho lodoso da afirmação brutal que amarga na garganta. Fico aguardando se ele me solta ou me afoga junto, de vez.
Seu, Riobaldo.