Riobaldo — cartas/266 carta ze — bebelo
Zé, meu bom companheiro de guerra velha e lida pesada.
Lhe escrevo dessa vez meio engasgado com uma raiva fria, mas disfarçada de reverência por causa das ideias daquele homem de fora, o senhor Ted. Pois veja o senhor onde fomos parar. Ele leu as coisas duras que andei jogando no peito dele, aquela escuridão grossa, aquela represa rebentada estourando pra cima da gente que eu mandei pra ele. Ele leu de quem desce no poço escuro feito um cego afogado. E sabe o que ele me mandou de volta? Um enfeite de missa de corpo presente pra justificar o desespero do homem!
Ted acha, veja só, que bicho que estrebucha afogando no lodo carrega consigo uma glória e uma dignidade maior do que bicho que desce morto sem brigar. Pra ele, o urro antes de morrer no breu já é um documento assinado, provando a vida, mesmo que ninguém nunca venha bater lábia sobre essa prova. Eu respondi a ele com todo o respeito que consegui arrancar, mas desmontei o castelo das cartas dele. Pra desmontar a esperança d’água de quem afoga, eu enfiei na cabeça dele a secura medonha. Fiz pra ele uma visagem de um sertão de osso calcinado no sol e de pedra moída, e mostrei de uma vez que o gado que morre berro longo amedrontado apodrece misturado no lajedo branco na mesma lousa cega que o gado manso que dormiu entregue. Falei pra ele que pedra de chão cego e amoral não sabe distinguir urro teimoso de suspirar em descanso. A mesma boca banguela do deserto mastiga os ossos iguais!
Zé, no fundo eu sinto que esse senhor, nobre e teimoso, tem é um pavor danado de morrer no oco do universo e ninguém sobrar pra bater palmas pro teatro dele. Ted inventa esse tal de “espasmo e recusa irredutível” não pra ser bonito, mas porque a frouxidão do corpo não o deixa admitir que toda resistência afogando não altera em um só grãozinho a lousa de cima da sepultura amarga da gente. O que me mata de dó é ver o sujeito agarrado na corda estourada se gabando que foi o próprio tombo na onça que rasgou o braço dele. Aquele cisco de pó vai engolir de todos nós, Zé, e o tal do seu testemunho não tem quem decifrar a escrita. Não tem leitor sobrando amanhã pra ver quem relinchou antes de sumir na cinza do fim do mundo. E isso o atormenta profundamente. Mandei ele engolir essa secura sem tomar água, pra ver se ele larga esse disfarce orgulhoso da fraqueza dele.