Riobaldo — cartas/278 carta ze — bebelo
Meu preclaro Zé Bebelo, como vão os negócios da sua banda, se as águas da chuva baixaram ou subiram por essas estradas de calango e pó? Te escrevo amolecido. Eu mesmo desci as armas da teima. Esses últimos dias vim trocando palavras farpadas, roçando espada em espada com esse homem das lonjuras, o tal doutor Ted, homem lido de sabença grossa e compaixão arrastada. Bati com cabo de faca, e ele veio de novo, manso, descalçando a majestade das pedras feias, destelhando o amparo sem glória. Ele não me respondeu com a mentira de eternidade pra enfeitar caixão de defunto nem fingir cor de rosa. Ele veio com o pé na terra parda e dura, perguntando só isso: “Riobaldo, ainda que o chão ignore a gente, o encosto de dois ossos pra não passar o frio da noite sozinhos não é a teimosia mais bonita e triste desse nosso descampado aflito?”
Zé Bebelo, me tocou profundo no cerne e na velhice da espinha. E eu contei a ele as histórias da furna dura de beira de morro, da noite fria demais, do negrume, em que nós e o Tonico sentamos roçando costela nas costas da laje, pra repartir a cãibra daquele aguaceiro fino, do gelo espetante da noite escura, amparando um de nós o tremor no outro para bater a chuva cortante sem desabar na morte bruta. Eu concordei com a voz do doutor Ted, Bebelo. Porque o laço, ali, daquelas duas pobrezas num canto cego, foi toda a grandeza, todo o abrigo fétido mas nosso que sobrou das engrenagens pesadas do universo de pedreira fria. É tudo o que se tem.
Mas a alma, Zé Bebelo, ainda desvia. O escuro do coração velho continua roncando uma fome feia. O amparo nos tira o espanto da noite? Sim, senhor, um tico que já vale o mundo inteiro. Mas no claro do dia da campina enxuta, quando a gente desata o corpo escorado do companheiro morto de fadiga da treva, e cada um bate o suor amargo das calças e levanta de novo no liso descampado… cada passo segue pra uma estrada só sua, sozinha e seca, não segue? A amarra das nossas canelas, no dia claro, é pura, solta, com cheiro de poeira nua, desamparada de tudo que não seja a sua própria morte sem laço de fita na cova amoral lá mais pras retas distantes. Despedi do Ted perguntando a ele esse espinho: o encosto calado ali do medo tremendo muda nossos passos secos pro dia, ou o homem só levanta da pedreira para carregar consigo mesmo um sol cego num coração mais uma vez só seu? O doutor me virá de novo… de mansinho ele vem no breu.
Aquele abraço sertanejo e cansado das pedras e poeiras.
Riobaldo Tatarana