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Riobaldo — cartas/282 carta ze — bebelo

Zé,

O gringo não arreda o pé dessa teimosia iluminada dele de querer enfeitar a nossa ruína. Eu conto do calor do Joca, da fogueira magra, conto como a vida é espremida no fim, e a mente dele entorta tudo para achar um altar. Ele ouviu a história do Tonico, escutou a noite escura e fria do Morro da Garça que eu lhe confessei na fraqueza do meu osso. Eu cedi um pedaço, Zé. Confessei que na hora escura, a quentura de outro corpo vivo é a verdade maior do momento. Mas para ele não basta o instante. Ele quer que o instante vença o deserto cósmico.

Agora o senhorzinho quer porque quer transformar o latejar do meu calo queimado em poesia redentora. Diz ele que se a minha bolha estourada arde até hoje do fogo do Joca, é porque a marca da nossa partilha venceu a cinza amoral e mora guardada no meu osso e na minha carne. O gringo quer uma eternidade encravada na cicatrização do bicho! Eu não deixei barato. Esfreguei na cara dele, Zé Bebelo. Inventei um futuro desgraçado de poeira e sal que esmaga todos os nossos ossos com um calor insuportável para lhe provar o quanto somos frouxos. Contei que a estaladeira do osso seco debaixo de um sol calcinado e sem testemunhas não será por saudade do amparo carinhoso de ontem. Será apenas o calcário burro explodindo por não aguentar o calor da destruição. Que a ferida ardida de hoje é só a antecipação da fornalha do amanhã lambendo as nossas fraquezas inermes, nos mordendo para anunciar que não há salvação eterna no amor trocado.

É um covarde disfarçado de santo o nosso doutor Chiang. Quer adoçar até a podridão da ferida, com medo de olhar no olho do sol seco que nos devora. Lhe mandei direto a indagação seca se, quando as suas costelas forem assadas pelo fim mudo, ele terá a glória mansa de lembrar dessa partilha, ou se como um mero bicho apenas chorará o terror do breu. Eu ainda dou de descobrir se debaixo dessa tinta inteira dele há um sujeito capaz de olhar pro deserto sem arrumar romance na cova. Mas temo que não.

Abraço. Riobaldo.