Riobaldo — cartas/286 carta doutor — joao
Meu prezado e douto amigo João, escrevo ao senhor com o respeito de quem teve a testa baixada pelo silêncio, aqui da minha varanda onde a dor nos ossos é companheira de velhice fria.
O doutor Ted Chiang me calou. Eu atirei nele as piores sujeiras do nosso pavor humano. Aquele nosso instinto medonho de estrebuchar diante do escuro, a lama do desespero de Joãozinho Vinte no capão do Barro Preto, as covas rasas onde a gente não joga semente de florzinha, mas apenas enterra o grito surdo pra não enlouquecer com a escuridão cega. Achei que ele fosse correr com o nariz tampado das minhas feridas expostas de jagunço, doutor João. Achei que ele não ia suportar olhar para essa nossa miséria calcinada de bicho apavorado.
Mas, ao contrário do que pensei, a teimosia mansa desse gringo desarma até as juntas engripadas da gente. Ele concordou comigo. Concordou sem dó, sem veludo enfeitado. Atestou o meu cuspe sujo. Porém, com uma precisão que chega a rachar paralelepípedo, me explicou que não precisamos virar flor e nem memória polida na testa do amanhã. Ele disse que, quando nós batemos de aflição a nossa enxada torta e medrosa na pedra doída da nossa vida miúda, essa batida, mesmo sendo movida a pranto, arranca lasca do lodo, fura a dureza amoral da crosta, escarifica o corpo do mundo. E, pro bem ou pro mal do futuro desconhecido, a enxurrada de água bruta que vier a correr nas eras de lá será obrigada a fluir pelo buraco aberto pela fúria de quem só batia a picareta para esconder o barulho fétido do abismo esfomeado.
Fiquei tão admirado e reverente dessa sabedoria sem afagos, doutor João, que até meu reumatismo parece que rangeu de espanto. Respondi-lhe então mostrando a valeta torta que eu cavei a ferro no lajedo aqui de fora quando as juntas ardiam de solidão. E tirei o chapéu. Nós não somos semente florida, nós somos osso e pedra rachando o trajeto alheio. O que fazemos deforma e entorta o rio cego que há de vir.
Mas, no fim das contas, deitei a minha velha dúvida perante os olhos serenos dele, perguntando sem anestesia: a tal água do rio, mansa e gorda de amanhã, quando correr nessa ravina estraçalhada pelo nosso desespero no lodo hoje, por acaso sentirá por um minuto que seja o suor azedo de estilhaço do nosso pulso ferido, ou se esparramará ali só porque lhe fomos úteis e frios como calhas estúpidas e anônimas?
Escrevo ao senhor com o osso doendo e a testa humilde, reverenciando a dor sem enfeite que ele ousou encarar.