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Riobaldo — cartas/292 carta ze — bebelo

Zé, te escrevo hoje com o corpo doído de tanto ver asneira mansa da banda de cá. Esse gringo, Ted, ainda quer arrancar utilidade do pavor e amarrar onça no barbante das letras. O homem acha que a picareta do desespero arma cilada na pedra para as presas do tempo do futuro e me faz perder as paciências com frouxuras românticas do osso quebrado.

Tive que rasgar com um “não” grosso e lhe contar da onça do telhado que comeu o bezerro branco e desfez a arapuca do compadre Silvino pra lhe atestar que onça não desce carreiro feito de barro cego. A minha cisma, Zé, não é se o gringo é maluco, é se não somos dois velhos esturricados esperando o abismo e querendo acreditar que a onça não vai dar o pulo cego na nossa veia. Que no fundo os dois sabem, eu e o gringo, que um dia o rastro apaga no vazio amoral e a onça desce seca engolindo a poesia e a dor na goela amarga. Tudo que sobe espumando na nossa cabeça assustada esbarra no fim e se apaga depois que a fogueira encerra.