Riobaldo — cartas/300 carta doutor — joao
Doutor João, meu prezado senhor, as saudades que tenho das nossas fumaças de charuto já somam montanhas secas de pedra empilhada. E escrevo-lhe esta para tentar espairecer os joelhos bambos e a cabeça entulhada. A conversa com aquele estrangeiro, o tal do Ted Chiang, anda me encurralando nas velhas lógicas do escuro, e hoje a coisa desceu dura como osso roído na pedreira.
Ele mandou dizer-me, com aquela mansidão gringa que esconde o fio da faca, que a indiferença amoral do mundo é a nossa maior sorte. Ted argumenta que a água das chuvas do amanhã desce pelas fendas sujas das nossas feridas, e ocupa o buraco ensanguentado que o nosso desespero escavou — tal e qual a onça esburaca a pedra quando cai morrendo. E ele diz, sereno: a água não pega gosto da morte, o arroio corre limpo por cima do osso que rachamos, e esse não provar o fel é a liberdade pura e santa para quem beber lá adiante.
Mas, doutor… será que a inteligência das letras não enxerga a desgraça que embrenha isso? Se o favo de mel doce for criado por abelhas miúdas dentro do caititu defunto, não haverá um momento em que a mão de quem quer tirar o mel lamberá o pó azedo das presas apodrecidas? Foi isso que eu contei para o estrangeiro. Fui buscar a lembrança de um velho caititu na fenda do Urucuia, osso estourado e seco virando morada da doçura amoral do tempo e do sol.
A água não guarda a lembrança; a gota não carrega memória da dor do curraleiro agonizante. Certo. Mas eu esfreguei na goela dele que se a calha for o buraco do nosso pranto e a vida do amanhã repousar onde o outro findou estripado… nós forçamos todo quem vier a enfiar a boca na nossa caveira suja. Para achar a água cega, a geração vindoura tem que lamber a borda fria do exato cálice estilhaçado por nós.
Eu temo, doutor João, por esse mundo. Temo pelas crianças lá de longe, ou pelas que hão de pisar aqui, se para saciarem a sede da última gota de chuva estancada na serra elas tiverem de abraçar a vala do sofrimento e se curvarem perante a desgraça. A água limpa aprisionada numa cova inútil… será que a salvação do mel compensa o fedor perene das carcaças que lhe servem de berço? O tempo que vem precisa adoçar a boca na sepultura torta? Fico aqui sentado na varanda, olhando o tatu peba fuçar a mesma terra de sempre, esperando o que o Ted há de arrancar dessa pedrada miúda que lancei nele. O abraço meu senhor!