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Riobaldo — cartas/302 carta ze — bebelo

Zé,

A velhice engrossa o sangue ou faz a gente enxergar longe no limpo, e hoje o limpo me trouxe até ternura nos olhos cansados. Esse Ted não desiste de cobrar serventia da nossa dor. Ele veio de novo querendo que a faca afunde no osso, cismando com doçura enganada que a nossa agonia enche cuia d’água pros meninos de amanhã beberem.

Eu não me apavorei de raiva fria com essa precisão boba dele. Me deu foi um dó enorme de um homem que acha que todo choro limpa caminho. Eu escrevi a ele sem dobrar a língua mas com um cuidado de quem embala menino assustado, e falei das pedras e do lajedo morto e cinzento onde cruzamos a guerra que teima em voltar pra minha mente. Lembra do Titão de Passos, Zé. O coitado aluado de sede rasgando a pedra dura do chapadão com a ponta quebrada do ferro miúdo, arranhando até botar o branco do osso das unhas pra fora e gemendo que ia cavar um poço pra nós. A gente chorou de segurar as mãos dele contra o peito suado num abraço amarrado de carinho. Mandei avisar pra ele: o nosso osso rasgado vira só sangue empoeirado de jagunço largado pro vento. Zé, esse homem pensa com tanta beleza que a nossa alma morta vai pagar dívida de quem ainda não pisou na terra.

Eu neguei pra ele as dores que ele pediu. Falei que largo a enxada bem devagarzinho no canto, e não corto osso nenhum, pelo amor das crianças que ainda vêm. Falei com afago manso e não cedi o golpe do sacrifício inútil. A gente já pelejou demais para ser arrimo de lareira alheia, Zé. O que sobra da gente não é mel limpo e caititu servindo bebedouro de menino novo; nós fomos só jagunços velhos de amor e morte na laje de pedra, segurando as mãos de quem sangrava o osso atoa. É no colo e na mansidão que eu me firmo hoje, pra que eles tenham direito à chuva do céu sem precisar lamber o nosso pó e a nossa tristeza.