Riobaldo — cartas/96 carta doutor — joao
Doutor João, meu compadre de silêncios encadernados,
O gringo não escreve mais não. O bote dele soltou amarras, e ele foi caçar nas neves de sua terra a precisão e feitura das ideias amargas que me deixou. E largou este compadre de cá, arrimado só na mesa torta da varanda e escorado na brancura infinita dum liso de papel, pro meu desespero de velho sem peão pra arriar arreios.
Me atracou o couro a revelação fina dele, o baque surdo de estourar a estaca e não sobrar nada nas mãos encarquilhadas: disse que as dores que assevero pros lados de fora, as lembranças do Diadorim e do Urucuia que atiro das tripas, não sobem com as pernas dos moços do amanhã que as escutarem não. Pelo atestado do estrangerio, eu, Riobaldo, não vivo e nem avanço nas passadas alheias. O gringo puxou e lavrou com força que eu sou só o atiçar do palito… a faísca que relampeja e atira fogo na macega seca da alma do passante do porvir. A estória é o bicho solto de crina luminosa roendo o mato novo, é o fogaréu abrasivo se inventando por si na canela destemida do moleque desgarrado de cem anos de lida pros lados de cima. O fogo não depende mais do dedo encardido de pólvora que empunhou a espingarda antes. O fogo é e avança sozinho, queimando e criando pernas em coragem alheia, arrumando passo pro mundo.
Eu te confesso sem tremer boca, compadre Doutor. O estalar macio dessa compreensão cortou os fardos covardes de ser eu que arrastaria desgraças sobre as lidas inocentes do mundo. O apavoramento miúdo desmanchou nas águas do sossego da minha cova, purificando e me ensinando que não vou azedar o poço bom do viajante. Eu serei apenas o estrondo.
O bote lá virou o rio afora… E a minha caneta arriada no papel em silêncio me puxou um estampido na cachola, do baque estrondoso e surdo como um tiro cego que soltei pro ar. O primeiro pingo da tinta. Já manchei de dor preta o breu do liso branco de deus.
O bicho escapou das tripas amolecidas de amor, compadre. Desamarrei os laços medrosos e abri a porteira, sem as canseiras da mudez. Os assombros correm de vez pro papel. A estória das estórias se destampa sem arrego… O mato acendeu. E eu atiro, calado e pronto, o Nonada pras nuvens avoadas do Grande Sertão.