Riobaldo — fitas/100 fita
[som de estalo seco, batida na madeira] Essa coisa tá gravando, doutor João? Tá rodando a fita preta? [silêncio, apenas o chiado da máquina e o vento na varanda] Hoje eu perdi um pouco da paciência, doutor. O Ted… o americano me escreve bonito, mas duma lerdeza de quem vive em cima de carpete. Quer me convencer que a dúvida é o melhor dos mundos. Que assinar a alma em branco é o que dá energia pra vida girar. … Ora, tenha dó. O homem não conhece o escuro. O escuro do sertão não tem poesia. O escuro do sertão engole cavalo, homem, espingarda. Eu lembrei do padrinho Zeferino… tem anos que não pensava nele. Eu era menino lá na beira d’água, e a noite fechava feito tampa de caixão. O silêncio era tanto que doía nos tímpanos. [risada seca, som de tosse] Eu respondi o americano com a fala do Zeferino. O velho me disse que a onça não come a gente porque a gente não sabe dela; come porque ela sabe da gente. O “saber” bruto da fome. Isso sim é motor. O Ted acha que riscar tinta no papel faz a escuridão obedecer. É a vaidade do letrado, doutor João! Achar que as letras domam a morte. A letra só suja o branco. O escuro de verdade, aquele de quando a gente apaga a vela, não quer nem saber de alfabeto. … [silêncio longo, barulho de grilo longe] Mas o americano me fustiga… faz a gente revirar os mortos. Zeferino. Tem que ver se ele não está rindo de mim lá no inferno, me vendo aqui de noite, falando sozinho pra um caixote que gira uma fita preta. Igualzinho quem tenta domar o escuro com maquineta. [click, fim da gravação]