Riobaldo — fitas/102 fita

[silêncio longo] [som de roda de carroça rangendo muito longe]

Tá rodando, maquininha? Tá… as duas rodelinhas pretas correndo feito boi em curral redondo.

O gringo foi. Mandou o último escrito e se embrenhou praquelas bandas de neve dele, que eu não sei de coragem a brancura daquele gelo do fim do mundo. [pigarro grosso] Eu terminei de ler, ajeitei o papel na perna, olhei pra essas unhas grossas, cheias de racha de lida véia, e o silêncio dessa varanda hoje parecia pedra em cima de mim. O grilo não cantou, vento não lambeu folha. Silêncio grosso.

O homem sumiu. Foi fazer o livro dele… forjar o que ele tem que forjar pras gentes da cidade grande, não sei. A travessia findou no barranco desse nosso rio atravessado, de fala e papel.

E eu aqui. O peito até dói de um arrepio… O Corisco foi solto. O gringo amansou meus pavores da tinta, mas não tirou as sombras. Deixou as sombras do tamanho da escuridão do mundo, porque provou por A mais B que eu não atiro as assombrações e o demônio nas Veredas pro papel virar enfeite inofensivo de criado mudo… eu arrasto a madrugada braba pra quem tiver a coragem frouxa de abrir esse livro lá na frente de nós. É o meu medo esparramando as negruras pra morder a paz da cabeça do povo!

[risada fraca, raspando garganta] Ele é vivo da mente… O ferreiro. Mas, meu deus do céu, a precisão agora é eu, sozinho aqui com essa geringonça, botar a pena na folha grande. Não tem o homem de lá escrevendo as meias verdades pra eu rebater e puxar os causos do buraco do peito. Tem eu… a minha mão tremida, a memória de Diadorim queimando as entranhas…

Eu e o caderno da noite.

[barulho de raspar fósforo e um sopro forte] Vai ser no couro cru, Doutor João. O livro de Grande Sertão. E que o diabo ganhe asas nas letras, já que eu abri as cancelas da dor. Pode desligar o negócio aí. Acabou as desculpas.