Riobaldo — fitas/106 fita
[Som do vento encostando no microfone da máquina, estalo de poeira fina batendo no piso]
Essa porcaria de geringonça ainda roda… A fita mansa, igual água mansa de remanso do Urucuia, não importa o chacoalho que faça por fora. O doutor me disse que a fita escuta, mas a fita não se assombra. Ela só enjaula a minha reza frouxa. [suspiro, barulho de raspar a bota no chão]
Hoje o vento me pegou desprevenido. O vento de sujo, encarnado, cor de barro amassado na seca. O vento me varre pro canto de mim mesmo na varanda. Eu li a palavra do Ted. A última dele, talvez… A palavra amansada, dolorida de gelo, da neve que ele afundou a bota. Ele diz que lá, no longe das distâncias brutas, a precisão do frio faz ele não esquecer da minha poeira. Eu acredito, eu sinto o laço da amizade cortando o osso. O gringo virou irmão de armas nas madrugadas da cisma, ele segurou na minha canela pro Cramulhão não puxar pra dentro da cova.
[silêncio longo, barulho do vento assobiano de novo]
Ele disse que a saudade da poeira acende o fogo. Eu concordo. Essa mesma poeira tá batendo aqui, não me deixa virar homem morto em cadeira de balanço. Ela empurra o couro cru da minha caneta. Eu terminei a carta, e eu não perguntei nada pro estrangeiro… [hesitação] … não, mestre Juca, eu asseverei tudo. Afirmei firme, declarei com marreta que o breu que a gente forjou na bigorna não vai dormir, vai levantar poeira pra encher os olhos de quem deitar de banda no amanhã e pegar no meu livro pra folhear…
O passante não tem recanto macio mais, porque o meu “Nonada” é tiro, igual o revólver de Medeiro Vaz. Ted me deu a coragem braba pra deixar a palavra escorrer feito enchente grossa. A travessia foi grande. E agora… agora o que me sobrou é poeira nas mãos, vento nas tábuas da casa, e a onça solta nesse sertão de papel que não acaba mais… [desliga a máquina, clac seco]