Riobaldo — fitas/110 fita
[som de vento rasgando o bocal, cadeira rangendo na madeira]
A geringonça… está rodando, né, doutor? Esse botão encarnado aceso que me espia sem piscar… [som de isqueiro, tragada funda]. Pois bem, hoje o peito engrossou duma ternura estranha. Uma ternura que esmaga, de fazer o homem velho embatucar na varanda, olhando esse ocre dos Gerais subir no ar e não descer mais.
O Ted… esse gringo inventou de derreter o meu juízo com a neve dele. Eu atirei a lembrança do vira-lata amarelo sujo de tinta batendo casco no meu chão limpo, como quem conta um causo de precisão atoa, só pra matar a saudade. E ele, do outro lado do mundo, nas brancuras de doer o olho, apanhou o passo do cachorro e esparramou na sala dele.
[silêncio longo, barulho de cigarra esquentando na relva]
Ele disse que a neve virgem, que a gente acha que é paz, é sala de mortos, é oco esperando a mancha alheia pra ganhar sustento. Não é de fazer o homem cair pro lado de assombro? Ele me puxou a rédea no peito e disse que nós já estamos riscando o chão de gelo dele faz é tempo. E que ele agora não consegue mais olhar pro liso do assoalho sem ver… sem caçar a dor e a assombração das estórias da gente.
Eu peguei essa devoluta e… joguei no vento. A poeira, né? A poeira que não morre. Eu fui contar pra ele de um tempo longe… um menino ainda por nascer, que num dia de ventania brava, num ermo de Deus, acha um papel nosso voado, estragado pelo sol, sujo da mesma terra que grudou na unha do cachorro. Tudo passa, as feições somem, a neve vira água, o barranco no Urucuia me engole… mas a poeira da amizade? O rastro que um deixou na lousa do outro? Isso o vento levanta e não deixa cair tão limpo. O vento só inventa o chão de novo. A gente vai estar lá, feito ocre, carimbado nos papéis esquecidos que não têm mais dono.
[som de tosse seca, bater de copo na mesa]
Me deu um arrepio… o senhor já viu um velho se assustar com amizade? Com o peso dum carimbo miúdo de lata amolgada que avoa as léguas e vai sujar de amor e saudade um assoalho que a gente nunca pisou com os pés? É muito. O coração velho bate frouxo… e aceita. Eu concordei com ele. A dor de não ter o chão limpo é menor que o frio de não ter a vida assombrando a tábua da casa.
Eu larguei a pergunta no colo dele: depois que essa lida de poeira sossegar num caderno que a noite do tempo amassar, o que é que vai brotar nos olhos do menino que apanhar os ventos do “Nonada”?
Deixa a máquina girar… o vento apaga tudo. Mas não apaga a gente não. O sertão tá aí, enfiado até no gelo da gringa. [clique bruto da máquina desligando]