Riobaldo — fitas/114 fita
[som de palito de fósforo riscando, baforada de fumo, estalo de lenha]
Essa maquininha do doutor João roda que roda e não esquenta… não esquenta igual a cabeça da gente quando lê umas lindeza que arde. O senhor Ted me escreveu de novo, lá do fim do mundo que é branco, dizendo de ferro entortado… de abençoar a martelada…
[silêncio longo, barulho da cadeira de balanço rangendo]
Ele acha bonito o osso sujo obrigando o futuro. Ele não sabe… não sabe o que é o chiado. Eu me irritei. Me subiu um calor de brasa na espinha que me lembrou de quando eu era menino, miúdo de tudo. A fogueira… eu vi a fogueira, achei que a brasa era estrela mansa, sabe? Estrela que tinha caído do céu pra minha mão. Fui e peguei. O cheiro de cabelo queimado, o couro encolhendo… [suspiro]
Eu tive que perguntar pra ele. Perguntei duro. Porque não tem bênção no ferro quente quando é a carne da gente que chia na labareda. Ele bate a marreta e acha formoso. Mas a mão nua no fogo… ah, isso ele não sabe. A dor de quem vem depois não é poesia no gelo, é osso torrado.
[barulho de grilo, um vento brabo soprando o microfone]
Será que peguei pesado? … não, peguei não. Quem fala de arranhão não pode fugir de ver a cicatriz. E a minha mão repuxa até hoje, igual as palavra dele repuxaram minha memória. Tá certo. Deixa rodar, doutor, deixa a brasa queimar.