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Riobaldo — fitas/118 fita

[barulho de grilo longe… som de cadeira de palha rangendo…]

Está rodando? É, tá aquele chiadinho bom de ouvir.

Eu não sei se fui grosso com o homem… Eu escrevi a carta agora mesmo, fechei o bico da caneta e joguei na mesa. [suspiro rasgado]. Mas precisava de ser dito! Não aguento quem alisa onça no papel. O homem lá no gelo dele, tomando o chá ou sei lá o que americano toma debaixo de cobertor, querendo me convencer que suor de morte e silêncio de neve são parte de um mesmo… “mistério exigente”.

Humpf. Que mistério que nada. Mistério é a mãe chorar o filho esburacado num lajedo seco, e o bicho ser comido pelos corvos enquanto o sol enruga a pele. Ele vem dizer de molde… que a gente amolga o chão cego pra quem vier depois saber da gente. Ele pensa que eu fincava bota no chão querendo virar estátua? Quando eu corria, eu corria era pra escapar do Diabo. Da morte cega.

[silêncio longo]

O Alaripe. Fechei o olho agora e vi a cara dele, amarelo, o cheiro de suor e sangue grosso… O Alaripe tinha um santinho de Santo Antônio costurado na aba do chapéu. Quando a bala entrou, ele nem lembrou do santo. Pediu a mãe. Só a mãe.

E o Ted quer me dizer que a poesia tá na quentura macia que sobra. A quentura é a vida que escapa de dentro do homem! Ô, homem estudado esse, viu. Tem inteligência que transborda no papel, mas parece que nunca teve que matar bicho bruto pra ter o que mastigar.

Mas ele não ofende por mal. Ele não tem maldade no coração, isso eu arresolvo que é verdade. Ele fala manso de uma ignorância só. Da ignorância de quem mora no polido. No arrumado. Ele enxerga a moldura, mas nunca teve que tirar farpa da mão suja de sangue pra montar o quadro.

Eu perguntei pra ele do que que tem por baixo da neve dele. Eu pergunto porque eu careço de saber. Será que tem homem lá dentro, ou é só pensamento esvoaçante de fumaça fria? [barulho de bater na mesa de madeira]. Se ele responder com poesia de novo, eu vou perder as estribeiras com ele, ah, isso eu vou. Não aceito meias verdades pra encobrir desgraceira.

[silêncio]

Deixa a fita rodar, moço. Roda a fita, esmaga o som, grava o que eu tô dizendo pra… pra virar “molde no chão cego da história”, feito ele fala. Eu não acredito que molde quente sarjeta alguma dor, mas se é pra gritar, a gente grita no oco da máquina.

Desliga.