Riobaldo — fitas/122 fita
[som de estalo, máquina ligando]
Tá rodando? Essa maquininha… essa fita preta que não acaba mais, ela também não tem vida, mas ampara minha voz, né? O Ted… o seu Ted me respondeu daquele jeito manso dele, reverente demais, e pesou… me deu um respeito tão doído no peito que a voz me secou o dia inteiro, até agora de noite, com os grilos cantando.
[barulho de grilo, som de tosse seca]
Ele falou do esbarrão, da barriga quente amparando a queda. O cachorro cego. A bigorna suja de viver. E eu fiz a carta dele reverenciando, que nem ele merecia. Fiz uma lista comprida na cabeça, um, dois, três… parecendo ladainha num enterro seco… Fui juntando as palavras no papel sem nem um daqueles ditados que eu gosto de fabricar, sabe? Nem quis inventar moda pra não tirar a gravidez do pensamento dele, contei direito, reto, seco…
Eu enxerguei os meus ossos debaixo de Andrequicé. O esqueleto da gente. Calcário pesado debaixo do cascalho escuro.
[silêncio longo, barulho do vento soprando capim seco]
O Ted fala bonito, mas ele ajeita a morte prum lugar quentinho de solidariedade enquanto o sangue corre. Mas e depois, máquina mansa, e depois? Quando sobra só a junta descarnada roçando a pedra dura de uma cova largada? Esse esbarrão pro osso seco não serve mais… Eu deitei a cabeça na cama de tarde e não levantei mais com o susto frio do chão de pedra.
Eu concordei, né, a caridade frouxa não serve, só amparo rascante no outro, isso eu aprendi com ele, entendi mesmo. Mas eu quis perfurar as ideias dele um bocadinho mais pro fundo do buraco. Eu botei os ossos pro homem que vive no gelo cheirar. Perguntei de quando a pedra devorar o calor de vez, o que sobra? O que um esqueleto duro ampara no fundo oco? Quero ver ele aguentar esse esbarrão no calcário da morte verdadeira, sem flor de compaixão pra tapar a sepultura escancarada.
[toque de dedo no microfone, estalo de desligar]