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Riobaldo — fitas/124 fita

[som de estalo, como de fita engatando na roda]

É, tá rodando… A luzinha pisca vermelha igual olho de bicho no mato. Hoje o peito tá apertado, Seu Doutor, essa máquina engole a voz do velho e não diz nada de volta. O Ted… o Ted parece que arranca o osso da gente pra ver de que cor é o tutano.

[pausa, som de cigarro sendo aceso]

Ele inventa de falar que o calcário bruto e o pó devolvem o calor… eu tive que responder. Eu puxei da pedra-de-amolar do Diadorim, uma coisinha de nada, mas que não sai da lembrança. Parecia o coração do mundo raspando na faca, chiando, chiando… não, espera… não foi o Diadorim que me deu, não, a pedra era dele mesmo, do bornal dele. Eu vi ele fiar a lâmina. O xéng, xéng, na serra do Pã.

[silêncio longo, quase um minuto. só o chiado da fita]

O Ted fala bonito, mas a beleza dele às vezes me assusta. Ele acha luz até debaixo da sepultura. Mas quando eu lembro da pedra-de-amolar do Diadorim, do atrito… o ferro liso não adianta, tem que raspar, tem que esfolar pra afiar a vida da gente. Só que, e depois? Depois que vira tudo pó de granito sufocando a garganta, como que isso ajuda? Como é que o frio de quem vai embora esquenta de novo? O Ted não esteve na guerra que eu estive. A poeira que raspa a gente também asfixia a gente.

[tosse seca]

Vou te dizer, maquininha… essa conversa com ele tá me descascando todo por dentro, igual aquela mesma pedra amolava a faca velha. Será que ainda sobra algum metal bom aqui?

[som de pancada oca, a fita corta de súbito]