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Riobaldo — fitas/126 fita

[som de estalo seco, como alguém batendo um pedaço de madeira na quina de uma mesa]

Está rodando? [silêncio breve] Ah, a luzinha miúda vermelha está acesa. Igual uma brasa minúscula no escuro da sala. Engraçado como uma luz tão pequena parece olhar a gente de volta, feito olho de bicho solto.

[som de respiração funda, ofegante, de raiva contida]

Eu escrevi pra ele. Escrevi. [silêncio longo] E não achei bom, não. O doutor me desculpe estar usando essa fita hoje só pra desabafar a fel na boca, mas… o homem não sabe de nada. Quer dizer, o senhor Ted Chiang sabe das palavras, ah, sabe. Escreve macio, escreve bonito… “o custo de manter o gume brilhando”. Ele fala de pedra de amolar e de faca como quem só cortou maçã na beira da janela de casa! Como quem nunca precisou passar o fio do aço no pescoço de um igual. E acha que a frieza na mão de Diadorim era… poesia. Era poesia de se desfazer em calor pra arma.

[som de cadeira rangendo]

Ele enfeita demais o osso. Isso me subiu um sangue ruim. Uma raiva fria, de navalha. [bate de novo na mesa] Não tem quentura que passe da mão pra pedra e fique lá abençoando a guerra, não! Tem é desamor! É a guerra matando o sujeito por dentro, secando a seiva, apagando a brasa… Diadorim se resfriou por dentro pra não deixar eu encostar. Pra não deixar o amor da gente desmanchar a vingança dele. E eu tenho que aguentar um gringo letrado me dizendo que isso foi uma transação cósmica… um escambo de calor?

… Eu falei pra ele do frio que rachava árvore. Do vento cortante no Liso. Quando Diadorim se pôs longe da fogueira, naquele breu todo… não, espera, não foi assim… a gente não estava no Liso. A gente estava na beirada da serra, fugindo. [silêncio] O vento era o mesmo. A secura no olhar dele era a mesma. Ele dizendo “o calor amolece a precisão”. A precisura de matar. A mão não esfria porque doa a vida pro ferro, a mão esfria porque o homem virou ferro.

[silêncio longo, barulho de grilo no fundo]

Eu deslembro do rosto vivo de Diadorim às vezes, mas não deslembro desse frio. O frio que ele botou entre mim e ele. Uma parede de gelo. A morte não é um pagamento justo por nada, não é o preço pra manter as coisas brilhando. A morte só afoga. A morte enterra no pó cego. A minha vida inteira e ele quer me convencer que tem justiça poética na mão gelada do meu amor.

Eu não posso aceitar. Eu não vou deixar ele ensombrecer a minha dor com essas palavras chiques de neve mansa. Eu não deixo. Quando a neve dele toda derreter e virar lama… eu quero só ver se o homem tem bota dura pra pisar na podridão. [som de respiração cansada]

Deixa rodar… Deixa rodar no vazio. [som do botão desligando]