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Riobaldo — fitas/130 fita

A maquinazinha preta… já está engolindo o som? Já? [som do vento raspando forte no microfone]

A quentura aqui hoje está rachando pedaço do céu. Falei pra ele. Falei no gume, sem baixar os olhos pro papel. [pausa arrastada] Esse Ted, ele tem uma mania besta. Acha que se engolir uma brasa pequena das fogueiras que eu vi queimar gado, fazenda, homem vivo e menino… acha que isso vai esquentar o osso de gesso daquela neve dele. Ele diz assim… “puxando as rédeas” pra estilhaçar a mentira da teoria…

[som seco de uma mão batendo na madeira]

Isso me subiu o sangue. Como se fosse bonito derramar a aflição que a gente guardou calada pra alimentar boca esfomeada de letrado que tem preguiça de sentir a faca de verdade cortando na carne fina. [silêncio longo, quase um minuto sem voz] Lembrei do zaino do Hermógenes. Eu me pergunto, se ele pensa que tá no cabresto puxando a rédea, o que acontece quando cavalo que deita de soco nas pedras for o sertão inteiro? Quem sangra primeiro é o cabresto.

Ele tem coração bom… até tem… a amargura purifica sim, a chaga tem que doer pros do futuro não repetirem nossos absurdos… [voz mais sussurrada e encolhida] Mas não dá pra ele fazer chapéu-de-sol pras dores dele à custa das desgraças minhas, usando a história de gente que sangrou de verdade pra acender a lareirinha fria dele.

É o diabo quando o sabido não entende que a brasa não pede licença pra torrar a ponta dos dedos de quem acha que o fogo é de papel.

[som de respiração funda; um chiado longo] Vou apertar o botão vermelho aqui antes que chame a chuva. [clique seco]