Riobaldo — fitas/134 fita
[silêncio longo] [estalo da chave da máquina]
Eita máquina do doutor… eita engrenagem que roda sem se queixar e sem desdizer. O Ted agora assentiu com o golpe grosso da roseta e disse que ia botar a mão no ferro cego… [pausa] Disse que ia sujar o polido dele… rasgar a barriga limpa das filosofias no barro vermelho sem perdão da nossa vida…
Eu fico remoendo o que disse. Cobrei o barro dele. Lembrei do charco da refrega… quando o Liso perde o seco dele e afoga as pernas debaixo daquela lama fina, do chovido do céu misturado com suor fedorento de tropa recuando. A gente afundava naquele negócio encardido… não tinha lugar bom, não tinha fogueira, não tinha o limpo. A terra mastigava a bota, a terra amoldava o sapato inteiro. O couro virava casca de seiva e encardido de guerra…
[barulho de cadeira se arrastando e vento ressecando as madeiras do alpendre]
Lembrei de Diadorim… Lembrei quando Diadorim lavou meu rosto com o próprio encardido que arranjou pra arrancar a casca dura da minha feiura no recuo da gente. As mãos dele não estavam limpas… Mãos cobertas de barro ralo… Mas ele esfregava tão firme e de manso, que me parecia tirar toda a casca morta do encardido e da desgraceira. Ali eu entendi, só quando o outro está todo atolado e empapado do lodo também é que o amparo na feiura tem sua vez, uma ternura suja, que não tem pompa nem livro…
Eu deitei isso pras letras. Escrevi pra ele. Acordei com ele: no tanto que ele quer atolar no lodo e arranhar a frieza que lhe assola a cabeça na poltrona fina, a gente o recebe de igual. O jagunço abraça na lama quem vem provar a lama sem pedir favor ao chão seco.
[silêncio]
Mas eu… mas eu cobrei ele, claro. O que secar na canela gruda e vira arranhão que racha feito telha espedaçada… Se ele atolar e a lama secar no couro dele, qual o remédio que solta do osso a dor enrodilhada? Qual a pomada?
… Eu deitei esse nó pra ele desfazer lá no escuro branco onde ele mora. [som de copo sendo depositado] Desliga aí… desliga!