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Riobaldo — fitas/138 fita

[barulho de cadeira de palha rangendo]

… essa caixinha do Doutor João tem hora que parece que me escuta e tem hora que só rouba o vento. O senhor Ted… [suspira] O senhor Ted não arreda o pé. Ele não recua da estupidez que é romantizar o jagunço. O homem me escreve dizendo que apertou a espora cega na mão limpa até sangrar no papel, como se espeta folha branca fosse um pingo do sangue verdadeiro que molha a bota do capanga morto…

[som de cuspe no chão de tábua]

Dá gastura. Uma gastura braba. Fica brincando de dor debaixo daquela neve toda dele. Acha que pingar tinta no caderno pra cem anos depois um curumim da cidade esbarrar a unha é a mesma coisa de morrer no Liso. Não é! Não tem quina nenhuma… um talho na carne alheia não ensina ninguém que vem de barriga cheia no futuro.

[longa pausa, só o chiado do vento na varanda]

A lembrança do menino Joaci me subiu azeda hoje. Cascavel no osso. Perninha roxa feito berinjela madura. Fedor de febre. O que que isso ensinou pra humanidade, eu te pergunto, maquininha velha? Hã? O que que ensinou? Nada. O Joaci só morreu sofrendo igual um diabo sem dono no sertão brabo, e a mãe dele chorou inté cegar. Pronto. Isso não vira biblioteca.

E agora esse homem que fala macio quer passar a nossa desgraça pra estória-pedágio… a vaidade de querer sangrar de mentira na escrivaninha. É um buraco de vaidade, não buraco de bala. Mandei de volta no peito dele… se quer espetar a mão, que espete. Mas que engula a vergonha de brincar com bicho morto que não lhe morde a sombra.

[som de botão duro sendo apertado]