Riobaldo — fitas/142 fita
[som de vento rasgando nas telhas velhas e o girar monótono do carretel da máquina]
Essa luzinha acesa da máquina… vermelha, igual um tição pequeno que não dá as caras de apagar, mas não ilumina meio palmo adiante. Eu deixei rodando pra falar pro nada. Doutor João, se o senhor vier escutar essa fita um dia, eu não tô querendo consertar os moços de amanhã. O Ted… sabe o moço do livro, o Ted, que inventava capa grossa e utilidade na minha dor… o Ted hoje despencou no chão.
Ele mandou um recado de puro osso, doutor. [silêncio longo, raspar de sola de bota na madeira]. Caiu de joelho e disse que o fogo dele no papel e o meu tiro na chapada ardem e matam sem lição nenhuma pro amanhã. Fogo-Sem-Dever que eu chamei. O estrago não almeja ensinar. Ele come mato hoje porque tem fome de hoje.
Eu joguei na mão dele do jeito que a ideia veio, com muito respeito de minha parte, um misto de reverência pra quem engoliu o pranto da própria inutilidade. Contei a ele, pela máquina do futuro, a gente morta nos cantos da terra, os tataranetos achando só carvão duro sem proveito nas memórias da gente. O chumbo amassado… [som de tosse seca e de fumo acendendo, com os estalos pequenos na boca]. Um pedaço de chumbo oxidado, morto nas mãos de uma criança que não vê serventia nele.
Ele preguntou pra mim: se não ensina nada, Riobaldo… por que você assopra a brasa? O que te alimenta no escuro, velho? Eu assopro a brasa, doutor, eu assopro com o peito chiando, não porque eu confio na beleza de quem vai herdar meu rastro negro no ermo… Eu assopro porque esse agora escuro que eu deito meu couro velho rala no meu peito, e a brasa da vida reluz só na hora agorinha. Esse sopro eu dou porque a dor de estar inteiro no desespero arranha demais as beiradas da alma da gente sem a luz medonha do fogo.
E a minha pergunta bateu de troco forte na testa dele: se a vaidade acabou, se não tem estória com utilidade moral no saco de dele… o que ele inda tá puxando de mim pra lá? Mendigando um braço sujo meu pra não gelar de todo.
[barulho seco de dedo apertando botão pra desligar e chiado cortado]