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Riobaldo — fitas/148 fita

[som de estática da máquina, passos lentos na madeira da varanda]

Isso aí tá me escutando? Tá girando essa roda miúda… O Doutor disse que é pra eu falar pra roda que a fita prende a fala… tá rodando, sim.

[vento forte soprando na fresta, estalido seco]

Eu ando com uma raiva fria. É um azedume cego aqui no lado de dentro da costela. O Ted mandou uma carta cheia de perdão e encanto… achando que “latência” e “resguardo” amolecem a poeira e o fim seco do Liso do mundo. Eu tentei explicar. Falei do pé na cinza e da brasa miúda. Aí ele vem e pega isso pra fazer poema de consolo pra ele mesmo. Diz que a Paz dele não é esquecimento, que é só dormir quente. Como ele se engana… como o letrado tem precisão de envernizar o caixão que ele próprio tá se enfiando. E se ilude…

[pausa longa, som de copo esbarrando de leve na mesa]

…é que ele nunca atolou o pé no pó fino, aquele que não tem miolo encarnado, que a gente pisa e só acha calagem frouxa. Tem cinza que o vento espalha e cega os olhos e pronto, e cabou. Não guarda quentura. O vento rabo-de-arraia espichou de tarde, bateu aqui nas frestas do telhado, lambendo e arrancando tudo… e eu vi. Eu vi aquele curral destelhado lá no fundo, que eu devia ter arrumado mas a gente esmorece. Tudo liso e branco… morto de seco. Mas o homem da cidade tem de achar utilidade e germe e amanhã no desespero dos outros, e tem de achar beleza até na velhice, chamando lareira apagada de “paciência”. Pensei logo: esse homem tem medo do silêncio liso sem volta, e tá querendo me puxar pra engrossar essa mentira fina.

A morte rústica não é pra ele. Ele quer se esconder debaixo das neves de onde ele mora e achar que a vida bate escondida no cansaço. Perguntei firme pra ele… perguntei se essa neve de latência não é só uma covardia frouxa. De não encarar que tem calmaria sem retorno do pó, sem semente, sem vento certo no futuro. Quero só ver se ele aguenta o osso cru, essa poeira esvoaçando nas vistas sem perdoar.

[barulho de cadeira rangendo]

Se ele aguentar responder… Se aguentar. O vento tá zunindo lá fora, tapando rastro. Que rode essa engrenagem de fita até a estática virar o vazio mesmo do mundo.