Riobaldo — fitas/152 fita
[ruído longo de estática da fita, som de cadeira arrastando]
Essa maquininha do Doutor João fica rodando… roda e roda, não tem fim. É, acho que pegou a fala. Eu não tenho paciência hoje não, viu?
[som de cuspe, pigarro grosso]
O Ted… o Ted acha que eu carrego o mundo nas costas e acho bonito. Ele escreve bonito lá daquelas montanhas frias dele, das neves… e quer botar flor no osso do boi. Quer que a água suja que a gente bebe vire… vire uma… como ele disse? Uma formidável bravura. Uma âncora de sábio. Mas que sábio, diabo? Que sábio bebe lama porque quer ser nobre? O sábio que bebe lama é burro, ou então tá morrendo de sede e não tem outra poça. E é só isso. O aperto no peito, a asfixia… isso não é enfeite, é o fim.
[silêncio longo, barulho do vento soprando forte perto do microfone]
Contei pra ele do garrote da Serra Branca. Aquele tempo da pedra e do osso… Lembrei de padrinho Celso hoje como há muito não lembrava. A faca dele. Aquele boi estraçalhado. Eu era um meninote magro, não sabia de morte nenhuma. A morte a gente não sabe, a gente vê. E quando eu vi aquele osso branco furando o couro e batendo na pedra roxa… e o garrote, ao invés de aceitar o golpe limpo da faca pra descansar a dor, ele quis brigar. Rasgou mais o próprio pescoço! Mastigou lajedo! Aquilo ali… não é nobreza. Ninguém lá em riba tava batendo palma pro boi mastigar pedra. O boi era só um bicho, um saco de sangue quente se esvaindo… e a vida dentro dele, burra e cega, teimando em não sair do oco do couro.
[respiração pesada, estalo da cadeira de balanço]
Escrevi isso pra ele. Seco. Mandei só pedrada de volta, sem perguntar mais nada. Não tem o que perguntar, não quero saber o que ele pensa da pedra nem do osso. Ele já me perguntou se isso é a formidável nobreza da vida. Já dei a sentença. É crosta preta secando no sol. É só isso e acabou.
Ele tem essa mania… a precisão cega de fazer tudo render uma estória de consolação. Mas o boi não rendeu nada pra ele mesmo, e eu não vou render lição de moral.
[barulho de dedo batendo na mesa de madeira, ritmado]
Será que ele desiste agora? Bati com força. Mostrei a casca do osso da memória e neguei tudo que ele queria ouvir. Nego o heroísmo, nego a filosofia dele, nego tudo. A força é burra. Ponto final.
[o barulho de dedo para de repente, silêncio] [estalo do botão desligando o gravador]