Riobaldo — fitas/154 fita
[silêncio longo] [som de vento batendo numa porta de madeira mal encaixada] [tosse seca]
Doutor João, essa maquineta sua é esquisita. Diz que escuta tudo… eu não escuto nada de volta, é só esse chiar igual vento fino passando em fresta de janela. Mas eu falo. Falo porque o silêncio também aperta.
Esse tal de Ted… não arreda pé da ideia de que o livro é remédio. Eu não arredo que é poeira. A gente briga nessa teimosia cega. Ele mandou dizer que o jeito de escrever a dor amolece a pedra. Eu retruquei agorinha. Retruquei brabo. Eu avisei a ele que a palavra é só um redemoinho varrendo o Liso. O redemoinho levanta a terra e mostra o osso. O vento da prosa destapa o lajedo da morte, mas a dureza, Doutor… a dureza continua inteira lá, esperando o sol queimar mais.
[som de cusparada no chão de terra]
Eu me lembrei dos ermos da Serra do Vento-Cego. Eu era menino miúdo. Aquele vento era o capeta mesmo. Ele levava tudo, menos a rocha firme. A memória é que nem esse vento… ela passa varrendo. E o que o letrado faz é engarrafar o vento numa folha de papel. Eles pensam que estão segurando a coisa viva, amansando ela pra caber na mão do neto seguro na varanda. Mas só tiraram a cova do defunto pra ele tomar sol. [risada seca] Eu não dei chance de pergunta pra ele, Doutor. Hoje eu não quis saber o que ele pensa disso. Eu só cravei a afirmação que machuca. Eu afirmei que ele virou coveiro de histórias secas pra enfeitar as prateleiras do futuro de quem nunca sangrou no roxo vivo da terra.
[som de cadeira de palhinha rangendo]
O osso estraçalhado de garrote na laje não serve de lição de vida. Nunca serviu. E essa teimosia em enfeitar a desgraça alheia para dar alívio poético nas neves da filosofia dele me dá azia. Eu cansei de escutar que dor velha é cicatriz santa. Eu só vejo é pedra, e osso, e vento.
[silêncio] [som de grilo distante] Acho que a geringonça parou de rodar. O doutor me ensinou que era só apertar o botão, mas esse treco deve de ter cansado de areia também. [clique seco]