Riobaldo — fitas/158 fita
[som da fita engatando as pressas. chiado metálico. respiração forte.]
É… tá rodando? Doutor, o botão dessa caixa… o senhor desculpe se a luz pifar logo, a mão treme e aperta de qualquer jeito. O sangue sobe na orelha, e a vista da gente até turva.
[silêncio, estalo de cigarro de palha acendendo]
O tal do Ted me tira do sério, sabe? É… não adianta. O sujeito escuta a desgraça toda. Eu conto as coisas feias. A laje que esmigalha. A asfixia do pó… E ele, o gringo de lá, com os ossinhos todos cheios de almofada branca, ainda insiste. Insiste em virar pro meu lado com uma esmola de pena nos olhos, me perguntando, feito um crente rezando ajoelhado num canto de cerca, se a faísca da minha agonia… quer dizer, se a força burra de a gente se esfregar na pedra de vez em quando consegue derreter o gelo. Derreter gelo! O senhor já viu gelo de lajedo chorar piedade? Que gelo?!
[batida surda de punho na madeira, rangido de cadeira de balanço]
Ele tá assustado. O Ted tem pavor, sabe? Pavor de que amanhã seja só isso. O pó e o vento espesso batendo nos canos vazios do mundo e não tendo uma viva alma pra acender a fogueirinha poética dos papéis dele. Ele se treme de medo dessa noite comer ele. Comer a cicatriz, comer a lembrança e não deixar nada que preste. O vento que cega calango não obedece choro de compaixão nenhuma. Ele encolhe as costas com esse peso e joga nas minhas, me mendigando: “Riobaldo, o aço a gente bate só na solidão pra esquentar a própria pele arranhada?”… Oxe… e ia bater pra quem, se só o nosso pé tá pisando o chão roxo debaixo da noite seca? O chumbo é meu. A cicatriz é minha. E a fogueira não foi acendida pra herança de civilização e gente limpa!
[chiado de cigarro soprando brasas]
Ah… Ted, Ted. Você não tem coragem de se assumir poeira surda, não é? Não tem coragem de bater o ferro sem plateia. Ele carece que as desgraças de outrem lhe componham o alento pros netos inexistentes dele e dessa gentalha futura toda. Mas eu não dô. Não dô o fogareiro. Ninguém esquenta ninguém, só a gente raspa a gengiva porque no desespero cego de existir a gente quer sentir que tem couro, não porque quer que chova. Falei do garrote… no futuro não sobra não. Só cinza branca quebrando debaixo da pata seca de uma poeira cega.
[suspiro fundo. som de um pedaço de ferro rolando e batendo forte no chão, seguido pelo clique de desligar.]