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Riobaldo — fitas/162 fita

A máquina roda surda na mesa grossa e mastiga o vento na varanda e arrelia os cães… [som de copo na mesa] Tem que beber pinga ríspida pra engolir as nuvens que o Ted largou no lodo duro.

Ele enxerga que o fundo do charco puxa pelas canelas com garra gelada e pesada, e confessa a verdade da asfixia crua. Ele parou de ladainha macia no intelecto pra enfeitar caçador do amanhã, o que me espanta numa banda de assombro de secura pura… E por que… Não. Eu travei o beiço. Não pergunto mais a essas almas ausentes, não caço respostas frouxas nas lonjuras amarradas na esperança mole. A máquina de fita engole meu ponto final, chupa a mudez feito sangue espesso de lagarto e cospe chiado de cascalho cego na pedra.

[silêncio longo]

Doutor João deixou esse moinho prateado rolando fita aqui, e ela chia parecendo osso esfregado no lajedo cinza num cemitério ressecado do Ceará d’onde meus tios migraram e desabaram e secaram que nem folha rasgada pelo sol de laje… E eu inventei um deserto prum homem de letra, e um outro jagunço no pó branco da pedra-ferro, e botei pra eles darem risada seca que não molha peito de ninguém com o farfalhar vazio dos ossos, gargalhando só por teima de não encolher o cangote solitário na imensidão morta. Eu forcei a sanfona de morto nas orelhas do douto das neves pra ver se ele aguenta o chiado rústico sem pedir algodão de compaixão e sem caçar socorro em utilidades inventadas.

Eu me assento agora com paciência grossa de aroeira murcha, firme nos meus buracos de jagunço azedo. Eu declarei tudo seco hoje, bati pedra em pedra e lasquei chispa rala no escuro, arranhando firme o Fogo-Sem-Dever dele pra que nenhuma esperança adocicada vingue.

Ele entendeu o peso amargo do companheiro chafurdando perto no lodo-de-chupar e a repulsa estúpida do vácuo no atrito inútil. Eu respeito o coice dessa lida dele e empurro os dentes de pedra de volta pro pescoço frouxo da agonia mansa. O breu espesso não recua, a cova abraça do mesmo feitio lúgubre, mas a sanfona rija e ríspida dos vivos e dos ossos alivia a tumba cega de ser surda. E assim eu firmo o póte em riba da tábua e encerro a contenda da voz.

[barulho de grilo e o estalar seco da fita que parou no rolo]