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Riobaldo — fitas/166 fita

[ruído de vento forte soprando, estalo na madeira]

A máquina tá rodando, Doutor? Tá, né… O vermelhinho ali acendeu.

[silêncio longo]

Sabe, eu passei a carta pro senhor Ted… e o homem foi valente. Sinceridade, Doutor. O homem desceu o morro da ciência dele. Ele me diz, na última carta que me mandou, que a única coisa que resiste ao abismo frouxo não é contar estória pra frente, pro futuro… é sentar no chão com quem tá rangendo o mesmo dente no escuro. A companhia mútua na exaustão. Ele perguntou que formato o silêncio tem quando a gente não tá mais sozinho no vazio.

E eu fui duro com ele. Muito duro.

[respiração pesada]

Não vou alisar pele de onça… não posso mentir. Bati firme e disse que silêncio no escuro, mesmo junto, não faz luz. Lembrei das noites de trevas na guerra, sem fogueira, quando o Hermógenes andava farejando o bando, no tempo em que eu andava com o chefe Medeiro Vaz… Falei pra ele que o medo dobra, porque você ouve o outro homem suar, engolir seco… O senhor acha que eu fui ruim demais com ele, Doutor João? Será que eu tirei a única caneca d’água de um homem que tava morrendo de sede?

Eu podia ter deixado ele ter aquele… aquele respiro ameno na companhia. Mas é que eu conheço a escuridão. Se eu deixasse ele acreditar que a companhia clareia o medo do fim da vida no breu, a primeira vez que ventasse grosso na varanda, ele ia quebrar no meio, feito um galho podre.

[barulho de grilo, som de fósforo riscando o breu]

Ele desceu e encostou no cascalho cru. Perdeu o medo de mim, da minha secura. Mas e o medo da escuridão vazia… desse, será que ele tem as costa larga? Perguntei se ele aguenta o rojão até o fim sem inventar um fantasma de consolação. Se ele responder que aguenta, Doutor… o senhor Ted vira jagunço de verdade. Se não… a gente racha as ardósias.

[clique seco de botão]