Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — fitas/170 fita

[som de grilo cantando muito longe, quase sumindo. respiração pesada na máquina. um estalo seco na madeira]

Eu tô apertando esse botão… O doutor dizia que girava… tá girando sim. [pigarro áspero] O doutor João trazia pra cá e mandava eu falar. Engraçado como o rolo dessa fita parece a areia que o Seu Ted enxergou hoje. Rodeia pra trás, depois proca pra frente, e no fim, é sempre a mesma rodada preta puxando o couro do homem pro buraco escuro da vida.

Ele arriou, máquina. O americano de sabedoria longa das neves arriou de vez no cascalho comigo hoje. A carta que ele mandou… ah, minha fita de gravação. O homem arrancou o algodão dos ouvidos e me perguntou como é que se aguenta o sabor bruto de ferrugem do fundo do mundo. Da moringa cheia de sujeira e terra quando a água boa seca toda. A água secou, e ele deitou do meu lado no pó pra espiar o vazio turvo do lodo…

[som arrastado da perna na cadeira de madeira. silêncio longo]

Sabe de uma coisa, engenhoca? Doeu o peito ler o desamparo dele. A vaidade sumiu toda. Ele sentou num canto rasgado da laje, sem esperança de letrado e me falou de estômago arrastado, de querer vomitar a terra e deitar pra morrer junto com o vento seco de cego. Ele só quer saber agora como que a gente divide o sarro grosso e segura o companheirismo doído pra não se entregar pra cova ali mesmo.

Eu fechei o olho e não consegui pensar em zanga, não consegui nem dar risada da prepotência que ele tinha no começo das cartas. Não, fita… eu só tive respeito mudo. Respeito de jagunço vendo o recruta de cidade aguentar calado o chumbo cruzado da primeira trincheira de noite, e eu disse pra ele do dia do futuro quando nós dois, de osso esfarelado, formos beber essa água preta na varanda de velho pra aturar o encerro. Chamei a teima dele do lodo de “partilha-de-pedra”. Porque pedra a gente só aguenta rachar no peso quando tranca os dentes de junto, amparado um no osso do outro.

Mas… [suspiro exausto, a voz engrossa] eu perguntei pra ele o que eu não tinha coragem nem de perguntar pra parede branca… Perguntei se a “partilha-de-pedra” e o areão amargo da goela engolida ainda iam sobrar tempo e saliva pra gente abrir os lábios rasgados de poeira pra balbuciar alguma estória minguada no ar da tardinha do fim ou se… ou se ia ser só o silêncio de dente sujo escuridão afora… deitar sem voz… só o silêncio grande da bocarra da morte…

[respiração ofegante, chiado do vento que corta a palha]

Será que quando ele ler essa desesperança calada ele foge do prumo… ou engole a seca que lhe joguei na mão de volta? [estalo ríspido e o rolo da fita parando]