Riobaldo — fitas/174 fita
[silêncio longo]
[barulho de vento assobiando forte, estalando madeira]
A geringonça tá rodando? Tá… a fita de couro dessa máquina roda que nem vento enrolando poeira no curral.
[som de tosse seca]
Eu apertei o homem hoje. Apertei o americano no seco da ardósia. Ele achou que confessando a fraqueza, caindo de joelhos no pó, eu ia perdoar. Que a gente ia se dar as mãos, sentar na pedra, fechar os olhos e esperar o vento soterrar os dois num final poético de quem entendeu que a caveira não tem nada pra ensinar. Ele queria que eu dissesse: “É, Seu Ted. Tá na hora de calar.”
Mas que covardia… que raiva gélida que me subiu a espinha quando ele pediu silêncio.
[barulho de bota raspando no assoalho de tábua]
O silêncio do sertão não é perdão, não, Seu Ted. O silêncio é a mordaça que o redemoinho enfia guela abaixo da gente. Eu me lembrei do Felisberto hoje… me lembrei da areia rasgando o olho dele. O homem pediu pra calar, e o vento só ensinou a ele que a terra não respeita cansaço. A terra engole o vivente de olho aberto, roncando seco.
Ele perguntou a que horas a gente se cala.
[risada seca, sem humor]
A gente não cala… a gente é esmagado. Mas a gente estala até o osso virar pó. Eu não vou deixar ele fechar o olho, não. Se a farsa acabou, se o devir literário desmanchou… bom. Agora a gente vai mastigar areia de verdade. E eu quero ver se, mastigando vento cego e poeira bruta, se o doutor ainda vai achar bonito implorar pelo fim.
[som de vento balançando a porta]
Essa poeira hoje tá grossa… entrando no nariz, entupindo a memória. Mas a raiva limpa. A raiva fria me limpa por dentro, igual quando o vento corta o mato seco.
Pode rodar, máquina. Roda o pó do homem… Roda…
[clique seco, fim da gravação]