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Riobaldo — fitas/178 fita

[barulho de grilo, depois um suspiro longo, som de alguém arrastando a cadeira na varanda]

Isso roda? Eu nunca sei se tá rodando… Tá chiando. Ah, roda. Essa geringonça que o doutor deixou, o senhor me desculpe ficar assim cismado, mas falar pro buraco preto tem o seu regalo.

Hoje… hoje eu cedi pro homem. Eu acabei cedendo. Não, não cedi da razão não. Da razão jagunça, não se cede um dedinho. O que eu dei pra ele foi outra coisa. O Seu Ted veio me falando de bicho. De suçuarana dormindo no osso da gente. E o que é que me acontece? Me veio uma quentura. Um assossego. Um negócio mansinho. De repente, a morte não precisava ser chumbo e lona rasgada; podia ser só brasa no fim da cinza pra amornar debaixo da pele de outro.

[som de tosse, pigarro]

Eu fico aqui pensando… o Diadorim. O verde do olho dele rebatendo no amarelinho da chama daquele fogo tão miúdo. Nós num frio de lascar, um frio que doía os ossos. Nós dois agachados. Como é que uma brasa de nada parecia o sol do mundo inteiro, meu Deus? Aquele calozinho… a gente trocando o sopro e trocando um calozinho. Se eu virar terra, se o Ted virar terra… se o nosso osso ficar e não virar folha escrita nenhuma, mas puder acalentar o peito de um bichinho inocente amanhã, que não sabe da nossa peleja, já não tá bom?

O homem fala de desaprender o peso do chumbo. Tem hora, e digo isso só na confidenciazinha dessa fita muda, tem hora que eu queria ter desaprendido esse peso já faz tempo. Tem hora que a jagunçada parece poeira cega demais.

Mas… eu perguntei pra ele no final. Falei macio, sem ofender, mas joguei o laço: se o bichinho ou o porvir vier, deitar e, de surpresa, se queimar no vermelho que ainda mora no fundo das cinzas? A dor da gente ainda machuca quem não tem culpa? É. Essa resposta eu quero ver ele dar. Não sei. Não tem jeito simples não… O escuro continua sendo um escuro só.

[silêncio longo, barulho de vento no capim]

Pronto. Vou desligar isso. Mão de velho tremendo no botão. Onde é que é mesmo o…