Riobaldo — fitas/18 fita
[som de estalo, como se alguém apertasse um botão com força. barulho de grilo no fundo, vento batendo num microfone]
… tá rodando? O doutor me garantiu que a fita preta… puxa o que a gente fala. É, tá rodando.
Olha, maquininha… olha o que o seu Ted me mandou hoje. Ele diz que quando a gente faz um negócio no mundo, quando a gente solta uma palavra ou dá um tiro, a coisa gela. “Evento”, ele chama de evento. Fica duro, não desmancha, e deita na mão dos outros pra ser usado de qualquer jeito sujo ou limpo. A Imortalidade Objetiva… que nome doido, né?
Mas ele botou a faca no meu osso. Perguntou se era pior ver um jagunço de alma preta usar a minha estória de chibata, ou se era pior deixar a bica de pedra do Diadorim secar de vez no silêncio e sumir no nada da cova…
[silêncio longo, quase dez segundos de chiado]
Não me peça pra aguentar a segunda morte dele, não. Eu mandei pro Ted… escrevi que me alumbrou a precisão da morte. O apagar de tudo é que é o cemitério. Eu deixei no papel a emboscada do rio das Velhas. Lembrei… eu não queria ter lembrado, não, mas subiu forte. O grito do “Fogo!”. A minha ordem no ar que eu não consegui engolir de volta. A palavra virou bala. A estória, eu assentei lá, a estória depois que sai da boca da gente é feito chumbo quente fora do cano: não pertence mais pro atirador.
Mas… se eu atirar toda a minha estória pro mundo de papel… se eu parir todos os meus eventos na escrita… eu pergunto pra geringonça, porque não tenho ninguém pra ouvir… o que é que sobra do Riobaldo depois do gatilho vazio?
A assombração sai de mim e vai morar na estória que eu dei de beber pros outros. E eu… como eu aguento sobrar vivo… sem ter a dor de Diadorim remoendo quente aqui dentro? Sem o peso, eu vou pesar de quê?
[som de um suspiro rasgado, depois o clique ríspido da máquina desligando]