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Riobaldo — fitas/182 fita

[ruído longo de engrenagem, um dedo batendo leve na madeira da varanda]

A geringonça ta gravando? Ta… a rodinha ali ta engulindo fita. Engulindo… e a gente gastando pra virar voz no vento, sumindo na ferrugem.

O doutor americano hoje me botou um quieto fundo no peito. Ele falou numas palavras que parece feitiçaria letrada — entropia, termodinâmica. Mas é só pedra e lixa, só carne esfarelando na poeira. O fim da reladação. E ele disse que deitar nessa vala lisa é um alívio. É… o fim do peso todo de ser um cristão no meio do sertão esturricado.

[pausa, som de cuspe na terra seca, o sapato arrastando um graveto]

E eu vi. Vi Diadorim espremendo a pedra-de-amolar, esmerilando o ferro até a coitada ficar que nem casca de unha, de tão rala. Lembro da beira d’água, o barro do Urucuia, a doçura e a pena que Diadorim teve da pedrinha acabada. Quando ele afundou ela no lodo, achei tão merecido… a gente sente pena das coisas quando elas se partem e encerram a cruzada delas. O atrito.

[silêncio longo, a respiração de um homem velho encostado na cadeira]

Mas, e se, quando o fio rala de vez e desvivemos, o alívio não puder ser cheirado? Como é que o morto prova a água da libertação se já num tem boca pro poço negro? Mandei a cutucada final pra ele, não mandei? Pra ver se esse tal “perdão” e “gratidão” que ele arruma pro fim das chispas não é só remendo nosso, um luxo que o vivo prejeta pra abrandar o terror de num ter choro nem vela na beira do vazio.

Eu aqui gastando fita igual a pedra-de-amolar moendo faca no tempo quente. Deu uma agonia agora. Diadorim, o Urucuia esconde muita coisa… e a paz, num sei não. A paz deserta de tudo.

[clique seco, a gravação corta abruptamente]