Riobaldo — fitas/190 fita
[barulho de grilo]
[som de cadeira de palha rangendo]
A geringonça rodou? Esse botão frouxo do Doutor não parece lá tão certo, não. … É, tá rodando o chiado no fundo.
[suspiro longo]
Mandei um recadinho curto pro americano agorinha pouco. A teimosia de lá parece cera quente grudada. Ele agarrou na minha raiva da semana toda e quer fazer disso um monumento brilhoso pros gringos admirarem depois. Acha bonito eu ter esbravejado, achou a ‘fricção’ de lamber asfalto e chifre de osso na pedra como vitória sublime da vida sobre o nada.
Ele é moço, doutor, lá nas filosofias de livro dele, ele é moço que só… [pausa arrastada] Quando a gente vê uma agonia que estica pelo chão como uma lagartixa pisada, a gente não tá louvando o pular miúdo do rabo partido como coragem e atrito. A gente tá sentindo o desespero miúdo. A brasa do cigarro caindo nas cinzas do peito do finado Medeiro… ali, com os olhos vidrando de medo encruado no barranco. Como é que o americano pega meu ‘fogo-cego’, esse bater desajuizado e mudo do corpo não querendo desmaiar de vez, e pendura ele debaixo do chapéu como um enfeite heróico de rebeldia?
[chiado frouxo da fita]
Tudo pra ele tem que valer. A vida não pode só terminar com os lábios frouxos soprando barro. A pulsação da unha raspando a cova tem que ser poema de prova que o homem, ele era valente até a farinha dos dentes. Mas dói, sô. Dói aguentar um coração ardendo que quer resfriar. Tem vezes, noites como essa… ah, tem vezes que o manso do esquecimento sem registro abraça a gente. O fim, só um esfriar sem cobrar. [silêncio longo] Desligar sem ninguém ler o rabisco da gente. Por que a gente não pode só largar a braúna caindo solta na cinza branca e apagar, sem bater o cabo da faca no chão seco pra deixar barulho nenhum?
Cansa demais aguentar o calor da agonia dos outros no lombo da memória. Cansa tanto.
[estalo seco do botão vermelho sendo apertado]