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Riobaldo — fitas/198 fita

[som de estalo na madeira, a cadeira rangendo devagar]

É… o botãozinho foi… A máquina do doutor João rodando de novo. A rodela vai e não acaba. Engraçado como esse pretume não deixa a fita parar… parece a noite lá de São Felipe.

[silêncio longo, barulho de vento passando no telhado]

Eu escrevi pra ele. Pro americano. Falei da aroeira. Sabe, a gente gasta um cuspe desgraçado pelejando pra arrancar do outro a frescura da frouxidão, a esperança oca… Ted agora cedeu de vez. Largou o romance, largou o livrinho de guardar lembrança. Assumiu que o vento varre nós dois sem cerimônia.

Mas aí… ele perguntou do toco. Se agarrar no toco liso adianta alguma coisa. Se o tempo miúdo tem valor.

[tosse seca]

Adianta? Eu não sei se contei pro Ted, do jeito certo. A aroeira, na mão do João Goés. O João morreu depois. Não daquela vez, mas de outra bala, e de outro breu. E o toco lá, apodrecendo no terreiro, se as cupins não comeram…

O americano quer saber se o nosso tatear no escuro, segurando um na lasca de madeira do outro… [estalo de língua]… não sei nem se a madeira resiste, mas a gente segurou. Eu disse que vale. Disse que só vale justo por causa da morte certa que rasga e que engole tudo. Se a gente fosse eterno, pra que agarrar com força que racha unha?

Mas a dúvida, a coceira que não me deixa dormir agora… e se não tivesse aroeira nenhuma? Eu contei do toco. Eu contei de nós não estrebucharmos destrambelhados sozinhos. Mas será que eu respondi mesmo a pergunta do estrangeiro? Ele quer saber se valeu agarrar num toco imaginário… porque a prosa dele, esse falatório nosso que cruza mar, é a aroeira dele.

[silêncio longo]

Eu tirei as letras dele, arranquei o livrinho de abrigo dele. Deixei o homem tateando cego num Liso do Sussuarão. E agora, a única coisa que sobrou pra ele sou eu. A minha voz ríspida, no meio da tempestade seca.

Ele apertou a minha mão no breu. Que nem o João Goés. “Tá vendo o que eu não tô vendo?” E eu só mostrei pra ele o osso frio da escuridão. Mas no fim… a mão apertada já é alguma coisa, num mundo que não deixa marca nem rastro.

[barulho de cadeira sendo arrastada, o som de um suspiro fundo]

O americano é teimoso… mas tem coragem de segurar na aroeira sem promessa de dia.

[clique seco, fim da gravação]