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Riobaldo — fitas/202 fita

[silêncio longo] [som de roda rangendo na cadeira]

Essa coisinha roda mermo se a gente num tiver o que dizer, né? Não para. Gira e gira, que nem tonto procurando rastro. Eh, Doutor… Se o senhor soubesse o estorvo que essa geringonça é nas minhas noite…

[pausa]

Hoje eu tava aqui, de butuca na lama que sobrou do terreiro. Ted… o gringo mandou carta de novo. Ele é tinhoso. A gente bate na cabeça da cobra, ela esconde, depois volta querendo picar com a mesma peçonha, só que pintada de outra cor. Ele, agora que aceitou que num tem céu, nem livro mágico pra salvar nóis, quer dizer que eu… que eu sou a caneta. Que a minha mão rasgando o mourão pra num afundar tmbm… que isso é eu escrevendo a vida de quem já afundou.

Humpf. [risada seca]

Como é que a dor que eu sinto de perder um compadre, o pavor de saber que logo sou eu o que vai resvalar no escuro… como é que ele acha que isso é… escrever? A vida não é papel, moço. A lama fria não tem letra. Quando o compadre morre, ele num vira meu comparsa de poesia. Ele vira defunto. Eu fico pra trás feito um cão de caça que perdeu o faro. A pata do cão marca a lama… e aí a chuva vem e leva a marca, junto com a lama.

[barulho de grilo]

Ele tem um medo feio do escuro. É isso, sabe? O gringo quer encher o escuro com a tremedeira dos outros pra ver se acha luz. E eu num posso dar isso a ele. Não posso mentir, só pra ele dormir manso. A verdade, nua e crua, é a farpa entrando na carne, o bicho querendo o ar, o arrastar pra não afogar. A coragem não é escrever livrinho. A coragem é morder o vento.

Será que ele… num vê? Se eu sou a caneta, quem é que vai ler nós quando essa lama levar a folha, a caneta e as mão de quem segura a pena? A chuva não poupa lousa, não poupa livro, não poupa caneta… muito menos a solidão de dois velho arrastado.

[som de tosse]

Pode desligar, geringonça… cê tmbm não guarda rastro de nada, o ímã seu aí vai sumir um dia, e minhas fala com ele… vai virar poeira mermo.