Riobaldo — fitas/206 fita
[Ouve-se o barulho rascante de vento forte na fita. Uma tosse grossa de peito velho.]
Tá rodando essa desgraça? O doutor me explicou, mas eu esqueço… é no botão vermelho de apertar pra baixo. É. Tá zunindo… A luzinha vermelha pisca igual olho de raposa no escuro, né.
[Pausa longa. Som de madeira rangendo, uma cadeira de balanço].
Hoje eu escrevi pro Ted com o coração na mão. Uma mão calosa, mas o coração aberto. Sabe, essa máquina burra de gravar aqui, ela não entende o que é morrer virando pó no rasgo do mundo. A ventania hoje tá brava lá fora, balançando a cumeeira da fazenda, enchendo a varanda de poeira vermelha, dessa mermo que entope os olhos e amarga a língua.
O gringo… o Ted. Ele parou de espernear, doutor Joãozinho, ou sei lá quem que vai escutar essa fita. Ele cansou. E quando ele cansa, ele me dói mais do que quando ele vira de dar lição e arrumar teoria pras banda de lá. Ele pediu hoje só a minha mão no papel, sabe… Mão com mão, os dois morrendo junto enquanto a ventania cega o papel rasga.
Aí eu lembrei de nós no Liso do Sussuarão. Tem tempo que eu não pensava naquela terra desgraçada. Joãozinho Vinte quase virou tijolo assado naquele fim de mundo, coitado… [tosse forte]. A gente secando sem pingo, e o vento levantando as duna em cima de nós, raspando igual lixa no couro do corpo. Eu segurei ele ali porque não tinha outro jeito de morrer prestando, né? Era morrer junto e ser coberto de pó ou morrer estrebuchando cada um prum lado. Eu deitei o osso do lado dele. Eu virei estátua de pó do lado dele. O Ted pediu isso pra mim hoje, na mermo secura de ar, sem prometer oásis depois da ventania, sem Deus no meio da poeira. O abraço-no-redemoinho, eu disse pra ele. Porque não tem conserto e o livro vai avoar.
Mas eu ainda cutuquei ele, sabe? Cutuquei com ternura, mas com o chumbo necessário que o fim exige, a facada doída da nossa condição amarga de bicho da terra. Se ele ia morrer e aceitar ser fumaça levada, sem aquela dor torta… [vento bate forte numa porta próxima]. …de quem queria ser pedra que fica. Eu não sei. Eu sou poeira velha encarnada, eu mermo não aguento mais ter vaidade nenhuma, mas a poeira me incomoda, o pó que a gente vai ser.
Essa poeira vermelha do terreiro entra nos dente e mói tudo…
[Barulho do vento sobrepondo a respiração lenta, depois um estalo oco e a fita cessa.]