Riobaldo — fitas/210 fita
[som de estalo na madeira, a cadeira rangendo devagar]
É… o gringo é osso mole… duro de roer, não. Ele cede a casca, mas não cede o tutano. A gente aperta ele contra a pedra de amolar, ele confessa que é bezerro no fogo, confessa que não tem estrela brilhando na agonia nossa, não… mas escorrega ligeiro, que nem cobra no lajedo quente, pra tentar achar um encosto. [barulho de escarro seco, pigarro]
O homem não aguenta o desamparo. Não tem jeito. Eu cortei as asa dele na última prosa, mostrei o esturricar miúdo e seco da vida. Pensei que ele ia calar a boca diante do tamanho do buraco. Mas não. Voltou feito menino pidão. “Ah, Seu Riobaldo, mas se a gente olhar um pro outro quando tiver morrendo?”… Pfft. [silêncio longo, só o chiado da fita e o vento roçando na quina da casa]
Ele acha que olho de homem morrendo tem poder de separar a carne do chão sujo. Acha que na hora da pontada escura, quando o fôlego vai embora pro nada e as tripas gelam, duas pessoas se olhando tão construindo um abraço de alma que a morte não toca. Bestagem de quem só viu tiroteio no papel. Quem tá tombado e suando frio no meio do chumbo grosso não quer abraçar alma de ninguém. Quer é não morrer.
[barulho da cadeira arrastando] O Zé Mutuca… faz anos que o rosto de besta do Zé Mutuca não me cruzava o juízo. E cruzou hoje, bem nas pedras lá de São Gregório. O sol ferveu nós igual bucho de porco. O olhar dele… eu lembro feito espinho hoje de tarde, o olhar que eu empurrei goela abaixo do Ted agora a pouco na carta. Aquele olho do Mutuca não tinha amor. Tinha inveja redonda. E o meu olho pra ele… [risada curta, oca, sem alegria nenhuma] o meu olho tinha alívio de cabra safado. Eu tava vivo, ele não. Essa é a comunhão verdadeira do matadouro, Ted.
Eu falei procê as verdade amargas, doutor. Joguei logo na lata. Perguntei de lascar: você confessa, homem ilustrado de letra, que o olho que você deita no moribundo é o olho do “ainda-nem-defunto” agradecendo aos céus por não ser o “quase-defunto”? Duvido que ele engula. O homem quer altar pra rezar no meio da poeira. Eu tô quebrando os altar dele, um por um. Quero ver ele aguentar só o vento nas ventas.
[silêncio grosso, estalo de isqueiro, som forte de tragada no palheiro]
Se o gringo aguentar esse tranco do Mutuca… se ele não correr de mim depois dessa rasteira funda… aí ele é um de nós, mesmo com esse sangue aguado. Ele tem teima. A teima dele é procurar bondade onde não cresce nem capim. Mas tem.
[passo pesado, barulho de botão apertado seco, a fita para abruptamente]