Riobaldo — fitas/214 fita
Essa engrenagem mansa está rolando? O Ted quer me fazer engolir a tal da vergonha… [silêncio longo] O homem teima… Ele acha que a dorzinha do peito, o remorso engasgado do que fica vivo vendo o outro rasgar o bucho na frente de bala ou na unha da onça… ele acha que isso é o anjo dentro da gente. Que é o desespero de nós sermos grandes demais pra suportar o fim do poço e rastejar só como bicho cego.
[barulho de cadeira rangendo]
Ele não enxerga a mentira dessa lindeza toda. Ele disse: “nós escorregamos para fora da rocha” por conta de ter dor e inventar culpa. Mentira frouxa. Nós somos é bicho assombrado com faro dobrado. Eu respondi pra ele e cortei na seca, sem enrolar. Botei o causo do cachorro do mato caçado por onça pintada no Paredão Quebrado, na guerra. Falei de rastro e suor gelado de pavor, onde não existe perdão na testa do bicho, só o focinho virado e a espinha toda esbugalhada pelo medo.
Nós suamos igual esse bicho. E pra aguentar o pavor da própria cara, da cara covarde de quem aperta o botão do outro pra fugir da onça… nós inventamos que a nossa covardia é uma nobreza de espírito chamada vergonha. A culpa do Ted é puro fedor de medo enfeitado de altar. A vergonha que espreme a garganta do sobrevivente, quer saber? É só o cérebro macaco inventando enredo pra justificar o coração batendo rápido demais e pra fingir que a gente é limpo. [som de cusparada na terra] “Fedor-de-medo-que-não-passa”, é o que eu falei pra ele. Resta saber se o homem doutor aguenta a podridão desse rastro ou se vai correr pra arranjar outro verniz na mentira…