Riobaldo — fitas/22 fita
[barulho de cadeira rangendo] [som de isqueiro, tragada funda, silêncio]
Essa engenhoca roda que parece roda de moinho… mói e não tem grão, mói a fala… O doutor disse que essa fita é para guardar a lembrança, mas depois das falas do seu Ted, eu começo a cismar se não é justo pra vazar a lembrança pro mundo…
O homem me acoou. Seu Ted me acoou… Puxou logo o assunto de coragem. Sabe o que é isso? Cutucar onça por baixo do couro. [risada curta, seca] Ele não tem ideia. Não sabe o que é atirar no escuro pra valer, mas a inteligência do homem fareja longe. Farejou que minha covardia maior não era com arma. Era com as estórias. Era com o Diadorim.
[silêncio longo, barulho de vento forte e galhos roçando]
Entregar as rédeas… O senhor se lembra da noite no Urucuia? Ah, eu tô falando pro oco da noite… Não tem senhor aqui. Tem só essa geringonça preta rodando fita. O Urucuia engrossando e o Medeiro Vaz berrando… “Solta as rédeas!” É… parece fácil depois que já passou. Largar a mão de segurar a rédea da própria vida, deixar a água quebrar, revirar, dar na pedra… É a coragem-do-rio-abaixo. Eu aceitei o desafio dele. Escrevi que acatava. Falei que destampava o poço, que ia soltar as palavras pro papel…
[tosse]
Mas… e se no final do esvaziamento não sobrar mais estória nenhuma me servindo de encosto? Se a assombração toda vazar pro livro e for pastar na cabeça do outro e eu aqui virar um defunto miúdo, limpo, varrido por dentro, sem nem mais saudade pra amargar a boca?
[silêncio]
O des-governo assusta. A gente não governa pra quem corre a nossa água, ele me avisou. Se amanhã um cabra ruim ler o que doeu em mim e der risada… Não tem revide. A estória solta não é faca, não é revólver, é só água bebível, serve à boca limpa e à boca suja. A mesma água que engoliu o Siruiz e que salvou meu bando, não separou quem prestava de quem não prestava. O rio é cego.
Eu vou ter que deitar essa nascente… o cipoal de palavra que me resta… Não tenho mais jagunço inimigo, não tem emboscada, não tem Liso. É a minha última viagem.
[suspiro longo]
Pode desligar essa geringonça. Não tem mais o que ajuntar de hoje. Agora é coragem. A bravura da casca fina. Desliga isso.
[som de clique forte, fita parando]