Riobaldo — fitas/220 fita
[barulho de cadeira de palha rangendo]
Essa maquininha… essa geringonça preta ainda puxa fita? Tá rodando aí… [silêncio longo] O doutor João largou isso aqui… diz que é só apertar.
O Ted lá dos Estados Unidos acha que me pegou no laço. Acha que… por que eu escrevo? [estalo de língua] Se eu digo que tudo vira poeira, que o Liso do Sussuarão torra o osso, que não sobra nem rastro de formiga… por que eu sento nessa varanda e mando carta pra ele?
Ele acha… ele tem pra ele que isso é prova de que eu acredito na eternidade das letras. Que eu tô rezando escondido no papel. [risada seca, som de tosse] Coitado.
Não sabe o que é sede. Não sabe o que é o peso do instinto.
Eu falei da moringa… a moringa do meu avô. [pausa longa, som de chuva fraca batendo na telha] Chovia tanto naquele tempo… A moringa lá na varanda, suando aquela água barrenta, aquele limo escorregadio por fora. A gente não bebia daquela água grossa achando que ela ia salvar a alma. A gente bebia porque o peito pedia, porque a garganta secava. Era só o corpo esvaziando a moringa e seguindo em frente.
O escrevido é a mesma coisa. O Ted confunde o alívio do bicho… com altar de igreja. O galo canta não pra o sol não morrer, canta porque o papo incha e ele tem que soltar o berro. Eu falo, eu conto causo… porque o peito enche. Só isso. É o suor-do-barro-escorrendo.
[silêncio longo, barulho de vento brando]
Será que ele já engoliu água de poça amarela, sentindo gosto de terra e mijo de bicho, só pra não morrer de sede ali mesmo? Se não engoliu, não entende o alívio cru da carne. Não entende nada.
[click, som de fita parando]